Na noite, a lua se recusava a aparecer. No céu uma bílis negra e densa transbordava, dando um aspecto tenebroso, e um vento frio e confuso anunciava chuva. Monica não se importou. Ficar ali, sentada num banco da praça, observando o nada ganhar forma diante dos seus olhos era de um prazer imensurável. Aquela mulher havia renunciado sua condição básica e natural: Monica não se sentia humana; era (em sua mente conturbada) um bicho. Por vezes pensava também ser uma carcaça que, a qualquer momento, seria possuída por outro espírito mais virtuoso e vitorioso que o dela. O barulho das folhas a se arrastarem desordenadas pelo chão fazia a pele de sua nuca se eriçar, como quando um homem, com desejo, toca o pescoço de uma mulher (mas ela não definia assim, pois não era mais gente). Essa pequena sensação despertou nela um leve sorriso – nesse instante seu corpo oco se sentiu invadido por um espírito estrangeiro e ligeiramente estúpido, ao ponto de arrancar dela um gracejo dos lábios. Aquela mulher, que era só um corpo a ser ocupado, pensava que aquilo era natural. Um dia todos nós temos que apagar nosso eu desgraçado e renunciar ao criador, dando assim asas ao vazio, pensava ela. Na verdade, Monica não queria mais pensar, nem sentir. Queria apenas o básico: existir, opaca e fria. A chuva que se prenunciava, finalmente chegou, mas veio de mansinho, de mansinho…  

Na outra ponta da praça surgia Gabriel; magrelo e torto como uma vara mal projetada de um bambuzal. Este rapaz trazia consigo um propósito penoso, mas que estava disposto e determinado a fazer – inclusive com os riscos calculados – e que faria naquela, que pare ele era perfeita, mesmo sem saber direito o motivo. Ele esperava estar sozinho na praça, afinal, já se passava meia noite e não haveria vivalma acordada, ainda mais num lugar horrível como aquele. Quando percebeu Monica, atônita e sonsa, sentada ali, bem no meio da praça, Gabriel foi consumido pelo mais completo ódio, que em questão de segundos lhe corou a face e fez seus olhos se estatelarem horripilantes. Como estava convicto de que faria o que tinha para fazer, calculou maneiras de consumir a intrusa. A figura quase sem expressão de Monica fez irritar ainda mais Gabriel. De algum modo ele queria entender o que ocorreria com aquela criatura, que, mesmo notando a irritação assassina do homem, se mantinha imóvel, com olhos tristes, sorriso tolo e conformado, dando a seu rosto traços de um imbecil. Imbecil ou não, Gabriel daria fim na mulher naquele instante, mas estava inquieto e curioso para saber mais daquela figura estranha.

Monica, num brutal átimo de consciência percebeu, meio tonta, a presença bufante do homem que parecia derramar sangue pelas ventas. Evitando olhar diretamente para ele, ela, sentada e sem mexer um músculo, começou a avaliar o estranho que estava diante dela, e, assim como ela, encarando a chuva-de-molha-bobos. Não percebeu nele um ser ameaçador, embora estivesse cuspindo marimbondos. Chegou a pensar, inocente, que a irritação do homem fosse pela chuva. Sem mudar a expressão, Monica se dirigiu aos olhos em chamas do desconhecido; ele, por sua vez, revidou a encarando de volta com outro ameaçador olhar. Gabriel, para correr com a mulher e fazer aquilo que havia movido suas forças por toda vida até aquela noite fez uma pergunta com tons de aborrecimento e raiva contida:

― Por que não vai embora?

― Por que você quer ficar? ― Irritado com a pergunta petulante, Gabriel se colocou na frente dela com violência de atos e bufou para que mulher fosse embora para longe dali. Monica, com a mesma irônica cara de antes, se levantou calma, olhou para o homem e saiu sem dizer meia palavra, dando as costas com resposta; Gabriel explodiu veias graúdas e cheias de sangue nas têmporas. A afronta daquela maluca o irritou tanto, que quase se esqueceu daquilo que viera fazer ali. Monica, já longe da vista dele, caminhava rumo a lugar nenhum, se molhando na chuva. O rumo que tomava não importava, afinal, não tinha para onde ir.

Gabriel, depois de passado o desgosto com a intrusa, caminhou lento até uma árvore, que durante o dia dava sombra a quase toda praça, e, delicadamente, preparou haraquiri. Antes de saltar em direção ao seu destino, olhou em volta da praça, sentiu a chuva e naquele instante soube qual era de fato o seu tamanho, sua dimensão no universo. Jogou-se; abraçou a morte com força e se agarrou nela.

Ao ouvir o sacolejar da árvore, que se balançou toda com salto de Gabriel, Monica – em um impulso involuntário e irracional de bicho que era – voltou até a figura tacanha, que agora se encontrava morta, dependurada. Com a mesma expressão sonsa e desprendida, Monica reconheceu a situação. “É a morte!”, exclamou consigo mesma. Embora não soubesse existir, a mulher sabia o que era a morte e se reconhecia nela. Não produziu um pensamento sequer sobre o que tinha acabado de ver. Sem mudar a expressão, lembrou-se que o amor é forte como a morte, pois, um dia, se lembrou que quando era gente, lhe falaram que isso estava na Bíblia. Monica deixou a praça em busca do seu grande dia: o dia de morrer. Ainda não encontrou, mas sabia que estava cada vez mais próxima, mas, para isso era preciso se bastar como humano, estar quite com a vida. Monica poderia ser tudo, mas não era de todo vazia. Ainda vagaria muitos dias pela terra.

 

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Flávio Sousa