Segunda-feira, dia qualquer, sem importar mês ou ano, em meio à escândalos políticos, em semana de aplicar provas, em semana de entregar notas (e ouvir “mimimi” de aluno que não estudou), em dia seguinte de Corinthians campeão ou dia seguinte de um jogo vergonhoso contra o Palmeiras, Santos ou São Paulo. Qualquer dia da semana, às 7 da manhã, ou qualquer que fosse o horário em que aquele brasileiríssimo professor de Língua Portuguesa adentrasse a sala de aula, ouvia-se uma saudação, e então, a pergunta: “Vocês estão felizes?”.

Nós éramos alunos de ensino médio, queríamos descobrir a vida, não importando o que esse desejo pudesse nos custar. Nós éramos alunos de ensino médio, queríamos passar no vestibular, e achávamos que, assim, a vida já estaria ganha. Nós éramos alunos de ensino médio, e às vezes respondíamos, mentalmente, aquela pergunta capciosa com um rabugento “Feliz como? Eu estou nesta sala de aula, às 7 da manhã, enquanto poderia estar dormindo ou vendo tv”. Nós éramos alunos de ensino médio, só sabíamos escutar com os ouvidos… Mal sabíamos nós, que alma também escuta. E muitos ainda não sabem. Eu não sabia. Queria o imediatismo das paixões que (obviamente) não dariam certo. Queria tanto, sem mal saber decidir o meu querer. Todos nós éramos assim. E talvez seja essa a beleza da adolescência: não se conter em esperar, não se importar, e ter crises de riso totalmente descontroladas, depois de fazer algo realmente imbecil junto com os amigos. Mas nós não escutávamos (tampouco sentíamos) a quintessência daquela pergunta feita à nós com regrada constância.

Sabe, leitor, tratava-se (e ainda se trata) de um mestre filho do Brasil, que sempre soube deixar marcas profundas na alma de seus alunos… Diplomado mais pela vida, do que pelos seus títulos acadêmicos. Desta forma, ele havia de saber que a sua pergunta era, na verdade, semente, e não questionamento. E a vida bate, leitor. E o “bater” é o real “regar”: ele foi toda a água e adubo que a minha semente precisava. E ela germinou.

“Feliz”, é mais um estado de alma e espírito, do que de coração e dentes à mostra em forma de um sorriso estampado no rosto. É uma mistura de amor e paz… E quando você alcançar certo grau de maturidade, entenderá que o amor ao qual me refiro, não é, necessariamente, a paixão fogosa por quem a gente gosta e quer beijar a boca, mas sim um amor dedicado à tudo aquilo que já se possui, mesmo que se trate apenas de um papel de bala; dedicado à quem a gente tem na vida, mesmo que seja apenas uma pessoa ou a nossa família. “Feliz”, é um estado de gratidão, que nasce no amor aristotélico, entre uma visita às memórias afetivas antigas e recentes.

“Feliz”, leitor, é uma escolha diária. Envolve decidir viver com leveza e com a alma sorridente, apesar dos dias ruins, das tempestades, da vida catracalizada, das brigas entre esquerda e direita e a sede de justiça. “Feliz”, é quando a gente resolve arrancar as ervas daninhas que cresceram na alma, e, no lugar de cada uma delas, plantar uma flor. “Feliz”, é aquela centelha de esperança, é aquela sensação de ter acabado de fazer algo realmente mágico, quando, na infância, fazíamos os nossos desejos para um dente-de-leão e depois o soprávamos.

Meses atrás, o acaso me permitiu um reencontro com o mestre que me plantou na alma uma semente de aprendizado, e entre um abraço apertado e novidades atualizadas, a pergunta se repetiu, e agora a minha alma sabia responder, a gratidão me preencheu e saiu pela boca. Depois de ir embora, ao me deparar com esta sensação, meus olhos se tornaram mar de alegre gratidão, pois eu finalmente havia entendido, talvez de uma maneira meio torta, o que aquele homem tentava ensinar todas as manhãs, para além da gramática, de Machado de Assis, Camões e Fernando Pessoa, ou de todos os tipos de texto possíveis e imagináveis… Para a minha alma e de meus colegas de classe. Então, leitor, eu te faço a mesma pergunta que o meu querido mestre fazia no início de cada uma das suas aulas: Você está feliz?

debora

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Débora Cervelatti