Trabalhando no bar a gente acaba vivendo os dramas e a as alegrias de alguns clientes, além de aventuras e clichês. Ora, o bar é isso certo? O lar das melhores e piores horas.
Naturalmente, fazemos alguns amigos entre eles.  Tem sempre aquele cliente que já de casa; os que conhecemos pela cerveja favorita, mesa de sempre e até pelo jeito que chegam ao bar. Sentam-se e não falam nada, apenas um “boa tarde”, pois sabem que já sei exatamente o que querem.

Por sinal, aí vem um deles. Hora do trabalho.

“A de sempre meu amigo! Como estamos?”, disse enquanto o servia.  Apenas fez que sim, enquanto acenou com a cabeça, “Ela vem sempre aqui não é mesmo? Aposto que você sabe o nome dela…”.

Olhei na direção em que ele apontava e lá estava ela. Nossa cliente mais, misteriosa por assim dizer, muito bonita e de poucas palavras. Tinha personalidade, isso era evidente. No seu copo sempre um Gentleman – versão de Jack Daniel’s que confesso ser minha favorita – sempre com três pedras de gelo. Era a única exigência que fazia.

Sentava-se sempre a mesma mesa; do lado de fora, o mais longe possível, para fumar seu cigarro sem incomodar ninguém. Parecia ter um ritual: chegar, sentar, pedir seu copo, pôr os fones de ouvido e abrir seu caderninho de bolso. Não falava muito e parecia se incomodar quando tentava ser muito amigável, um hábito de nossa profissão.

“Linda ela não é?”, insistiu o cliente. “Você está certo. Ela é linda sim e vem sempre aqui, mas não fala muito”. Para ser sincero não sei o nome dela”. Ele olhou-me desapontado e sorriu me dando um tapinha no ombro, como a um velho amigo, “ Você já foi melhor nisso, hã?”.

Era verdade. Era muito raro, não ter o nome de um cliente frequente. Mas também era ruim ser inconveniente. O bar é a segunda casa para muito, mas também um refúgio de paz, quando se quer esquecer o mundo.  Esse parecia ser o caso.

É de certa forma interessante como este lugar pode ser um universo completamente paralelo às vezes. Quantas coisas já não aconteceram por aqui? A mulher que vem porque quer paz e esquecer a vida. O homem que a observa, mas que jamais vai incomodá-la, afinal aqui é um lugar sagrado ou seria mesmo só inconveniência. Comemorações de negócios bem sucedidos e pesares de coisas mal acabadas. Inícios, meios, fins…

Observando os dois chega a ser engraçado. Ela anota coisas em seu caderno, parecendo escrever uma história ou algo assim. Nitidamente, entregue por inteiro a uma realidade que só ela conhece ou é capaz de compreender. Volta e meia agita seu copo, não para misturar o gelo ao uísque, mas para retomar a linha de raciocínio por hora perdida.

Ele continua a observar ela, esquecendo completamente o propósito de ter vindo ao bar – se é que em algum momento houve um. Parece intrigado ao vê-la ali novamente, tão envolvida num mundo que não enxerga. “O que será que ela tanto escreve?”, o vejo sussurrar.   Perdido, pede mais uma de sua favorita,  Old Engine Oil – Engineer’s Reserve.  Cerveja interessante e que lhe dá mais tempo para observá-la.

Seus olhares se cruzam algumas vezes. Ela não expressa qualquer reação a isso. Ele olha fixo como se fosse pego pela surpresa.  Vou até as mesas e pergunto se precisam de mais alguma coisa. “Um centroavante no time seria perfeito. Nosso time esse ano vai mal, não é mesmo?”. Concordo com a cabeça e lamento não poder ajudá-lo, “Sempre fui goleiro, hahaha”.   Ela, “Não, obrigada. Aliás, a conta… Por hoje, está bom.” E mais uma vez seus olhares se cruzam, mas dessa vez ela solta um leve sorriso, daqueles de canto de boca, enquanto alcança sua bolsa.

Ele parecia aflito ao saber que ela estava de partida.  Segurei meu passo, quando pareceu que ele se levantaria, o que seria surpreendente vindo dele.  Sempre foi muito tímido e todas às vezes em que tentou se aproximar de uma mulher no bar a história tomou um rumo desagradável, por mais discreto que fosse. Mesmo bonito e com uma aparência de ser bem sucedido, as pessoas sempre eram muito duras com ele. A vida tem dessas coisas.

Dei mais uma chance, antes de levar a conta do balcão, mas meu amigo já havia se entregado ao futebol que passava na tela. O que quer que tenha pensado poucos minutos antes ficaria para o próximo encontro – se houvesse um.

Enfim, vamos ao trabalho.  “Aqui está, senhorita…”, falei esticando o máximo que pude para dar a entender que gostaria de saber seu nome. Ela apenas estendeu o cartão e riu, “ Crédito, por favor.” Recebi a quantia e tomei meu caminho para o balcão, passando de propósito pela mesa dele. Talvez certo apoio moral o incentivasse. “Um dia eu vou entender qual é a dela meu amigo. Nesse dia eu vou até lá. Mas agora é hora do jogo”, disse entendendo meu ato.

Voltei para meu lugar a tempo de observar ela se levantando. Tomou um seu ultimo gole com o olhar fixado nele, que já não notava mais.  Pegou algo sobre a mesa e guardou seu caderno na bolsa e seguiu pela calçada, desviando para a mesa dele.

“Você é melhor nesse jogo não é mesmo?”, disse pegando ele de surpresa. Deixou um bilhete em sua mesa, riu e beijou-lhe a testa. “Até um dia”, saiu andando enquanto acendia seu cigarro. “Você viu isso?”, disse me chamando.  Parecia uma criança que acabara de ganhar um brinquedo enquanto abria o bilhete.

Aquele tinha sido o momento alto do seu dia. Não haviam  trocado sequer uma palavra, mas ele sentia que estava conectado a ela de alguma forma. Não sabia onde, nem quando, nem como, mas faria de tudo para vê-la de novo.  Então abriu o bilhete e ficou sem reação quando leu, “Seja mais gentil da próxima vez 😉 P.S. Old Engine Oil ? Boa pedida… Aceitaria um copo.”.

“Aceitaria um copo…”, repetiu diversas vezes como se estivesse em transe. Toquei seu ombro para trazê-lo de volta a realidade, “Saideira, amigo?”.

enlight1

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Participe da conversa! 5 comentários

  1. esse é um daqueles maravilhosos textos que você lê e abre um sorrisão em cada paragrafo. Lindo! Me encontro ansiosa no momento para saber mais de uma pessoa que até hoje só a namoro por olhares…

    Curtido por 1 pessoa

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  2. Manuella,
    fico feliz que tenha um sorrisão no rosto enquanto lê !
    Muito obrigado pelo carinho, fico feliz que tenha gostado do texto 🙂

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  3. Hugo, esse texto precisa de uma continuação. Lindo encontro de almas perdidas.

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