Eu passei por um calvário e me perco tentando explicar os motivos. Os pensamentos se tornaram tão nebulosos que a confusão se instalou dentro de mim sem data para sair. Eu me esforcei na intenção de expulsá-la, mas não tinha força suficiente. Ela era muito maior que eu. Sei que fui valente e lutei com bravura, mas cansei. Percebi que era inútil combater o luto. Ele tem seus propósitos e era necessário permitir sua morada. Eu tinha muitas lições a aprender. Ele comprometeu minha percepção de mundo, minha observação e o discernimento para tomar as decisões devidas. Se era para sofrer, que fosse sozinha. Abandonei tudo e a todos. Família, amigos emprego, hobby e qualquer outro prazer.

 

Eu precisava me deixar sentir. Precisava estampar o desalento sem medo do julgamento alheio. Eu não ouvi nenhum “Vai ficar tudo bem” e foi melhor assim, eu não acreditaria. Não era hora de ser absolvida ou condenada. O calvário era só meu, de mais ninguém. Abraços e colos não dissolveriam a dor que massacra minha pele. Palavras bonitas não curariam as feridas. Era preciso deixar arder e sangrar.

 

Deixei o corpo amolecer e revirei na cama sem pregar os olhos por dias e dias. As noites abafavam meus soluços e ali eu reli as cartas não escritas. Os pedidos de perdão, de ajuda, de clemência. Me deixei levar e atravessei madrugadas escutando músicas ruins e fumando dois maços de cigarro. Dissolvi-me em lágrimas acompanhada de boas doses de Jack Daniel’s. Naveguei mares revoltos numa embarcação furada e me esqueci do colete salva-vidas.

 

Não me atrevi a sair de casa, disfarçar a dor é dor ainda maior e eu não era capaz de suportar. Seria tarefa de heroína e eu estava muito longe de me tornar uma. A reclusão era parte importante desse processo todo e eu não estava disposta a quebrar as regras. Eu só sairia do poço quando chegasse ao fundo e, àquela altura, eu não via saída em nenhuma direção.

 

A esperança se perdeu no labirinto das lamentações e foi então que eu percebi que não havia solução para inexistência. O sofrimento comprimiu meus pensamentos e extirpou minhas ambições porque eu me apeguei à ausência. Ausência de mim mesma.

MONIKAJORDAO

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Participe da conversa! 3 comentários

  1. Monika maravilhosa como sempre e sempre! To sem celular e não dá pra te acompanhar no snap e dormir sem teus “fui” é ruim porque rio em cada snap antes do “fui” kkkkk. Amei o texto!

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    • Manuella,
      Que bom que você gostou do texto. Fico feliz em saber.
      Pena que está sem celular, o “FUI” continua lá, todos os dias hehehe
      Beijão!!!!

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  2. Nossa mim vi agora ,muito bom

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Monika Jordão, Uncategorized

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