Ouviu a voz chamando no quarto.Entrou e sentou-se em sua cadeira, de frente para a mesa. A mesma mesa de sempre
– Por que você não me dá mais atenção?
Uma cobrança como essa era sempre muito triste. As palavras batiam duras como aço em seu ouvido.
– Perdeu o carinho por mim depois de tudo que passamos juntos?
Sentiu-se envergonhado. Reconhecia que boa parte do seu bem estar atual tinha surgido após a relação entre os dois. A falta de atenção era de certa forma ingratidão. Hoje tinha certeza de que sem a sua companhia, no passado, quando tudo aconteceu e seu mundo virou de cabeça para baixo, não teria metade da paz atual.
Sabia também que aquela relação, tão íntima, havia sido sua válvula de escape. Era uma companhia sincera, simples e leal. Não o julgava, mas o ouvia sempre que ele precisava falar. Estimulava suas idéias sem dizer uma só palavra e no final deixava que ele tomasse as próprias conclusões.
– Ainda há valor em mim… Mesmo que não me queira mais, sabe que estou sempre por aqui. Mas notei que, ultimamente, tem me olhado com outros olhos… Os mesmos de antigamente. Por isso vim te chamar de novo.
– Você tem razão, me desculpe – Respondeu. – Estou de volta. Podemos?
Foi o melhor que pôde dizer, olhando fixamente. Sabia que não receberia um não como resposta, mas estava apreensivo com o que viria depois. Então respirou fundo, fechou seus olhos e relaxou.
Com suas mãos, buscou o lugar certo para começar e com o toque sentiu um ânimo que há muito tempo não sentia. Era como olhar pelas lentes de um telescópio: podia focar em algo, mas sabia que olhava para o infinito.
Ao abrir as páginas de seu velho caderno e sentir o cheiro das páginas em branco foi guiado por seu velho amigo, há muito deixado sobre a mesa, por um mundo aberto a todas as possibilidades. Em sua volta tudo se acalmou e foi cercado por um mundo ecoando e em branco, aguardando o deslizar do lápis. Este, ao tocar o branco do papel de seu velho amigo, o caderno de textos, fez com que uma explosão de vozes, pessoas, cenas e lugares se passassem em questão de segundos.  
Preencheu páginas e páginas. Sentia-se como com um amigo em uma mesa de bar enquanto escrevia em seu caderno. Uma saideira, depois a outra. Uma página depois a outra. Já estava satisfeito quando usou seu último ponto final e sorriu. Então, olhou para seu caderno e ouviu seu velho amigo dizer:
– Bem vindo de volta. Você fez falta.

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Hugo Ledertheil

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