Acordou de madrugada encharcado de suor, como se tivesse sido despertado por um banho de água fria. Havia acordado assustado, de súbito, mas não soube definir o que lhe retirou o sono. Depois de tirar a água do joelho, foi até a cozinha para preparar um café. Enquanto manuseava a cafeteira foi acometido por um pensamento absurdamente idiota. Como um louco que se despe em plena Avenida Paulista, queria saber o que era amar alguém de verdade. Sim, saber o que era amar! Descobrir de que eram feitos esses amores que se viam na televisão, esses amores que se liam nos romances baratos. “Que besteira pensar nessas coisas de madrugada”, disse pra si mesmo em um lapso de racionalidade. Só que em um infinito minuto torturante tentou definir e, por tabela, até sentir a escuridão de um amor verdadeiro. Insistiu na bobagem. Pegou a xícara de café amargo, muito amargo, e começou a observar a rua através da janela. Era uma noite muito escura, escura como quando se fecha os olhos. O céu estava preto, preto como o café que tinha xícara. Voltou para o amor. O que era aquele sentimento? Por que todo mundo queria sentir aquilo se era tão ruim? Causava náuseas, insônia, perda da sanidade e outros males terríveis. Por que homens e mulheres perdiam tempo com uma coisa tão desagradável? A resposta não sabia dar, mas queria sentir aquilo. Havia certo charme nos amantes que ele não possuía. Inveja, talvez fosse isso que sentiu naquele momento.

Dialogando com a xícara, com a janela e com rua, começou esmiuçar o pensamento ridículo. Era uma forma de recuperar o sono que havia se perdido em algum lugar naquele apartamento. Ficou cansando em pouco tempo e já não queria mais pensar naquilo. A questão agora era como chegou até ali. O que havia o feito acordar? Sabia que teve um sonho, mas por algum capricho dos neurônios, não conseguia se lembrar do que se tratava. De certo era um pesadelo, afinal acordou ensopado em suor. Existir, ali no sofá, era um fado terrível; a xícara pesava uma tonelada, a janela soprava o frio de junho pra dentro casa, sentiu os pelos das pernas se eriçarem depois que uma brisa gélida desceu até as canelas. Ficou enfurecido ao descobrir que era domingo e havia deixado o domingo ainda maior ao inicia-lo já de madrugada. Esqueceu o pensamento estúpido; queria dormir. Não conseguiu, é claro. Pensou em Carla, a namorada, e novamente foi invadido pela estupidez de entender a lógica do amor. Só que não fazia sentido usar como objeto de estudo ele mesmo, já que não amava a moça – no máximo gostava dela. Poderiam ser amigos, nem transar com ela fazia falta; se deu conta disso naquele instante e se assustou. Estaria mentindo para ela e para ele esses anos todos? A verdade era que sim, mas fez de conta que não e revirou memórias a fim de encontrar algum elo que prendia os dois. Se convenceu da própria mentira. Amava a mãe. E levou a sério quando ela dizia que “amor é só o de mãe”. “Só as mães são felizes”, concordou com Cazuza.

Voltou para a cozinha e pegou mais café. Percebeu que café não lhe ajudaria se reconciliar com a cama. E o sono continuava vagando em algum lugar difícil de encontrar. Talvez estivesse onde as palhetas se escondem, ou seja, apareceria quando desse na telha. Já estava conformado, mas era domingo, não gostava do domingo, mas saber que era domingo foi até reconfortante. Foi para a pequena sacada do apartamento e olhou para a rua vazia. Por algum motivo infeliz, os ponteiros do relógio estavam estáticos e o sol insistia em não aparecer. Lá embaixo, um carro ou outro se atrevia a romper o silêncio sufocante da rua. O silêncio é agradável, mas não quando se perde o sono: nessas horas, ele parece berrar feito um elefante macho que, por um capricho vingativo da natureza, tem um parto natural. Outro automóvel quebra a sinfonia do vazio. Esse passou devagar… devagar… O “rumm” pairou pesado. Ele acompanhou: quis colocar os ouvidos em teste e saber até onde se podia ouvir. Logo o som indescritível do nada tomou conta do ambiente. Voltou para a cama, apagou todas as lâmpadas; apenas as luzes da rua vazavam a persiana do quarto de dormir. Pestanejou e já era dia. Por não conseguir dormir, e possuído por um ódio mortal ao mundo dos vivos e dorminhocos, decidiu que dormiria para sempre: pulou da janela. Como castigo pela mesquinhez do ato foi condenado a virar luz e não se apagar nunca.

flavio

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Flávio Sousa

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