A noite caiu como um relâmpago e não deu tempo de reagir. Ela correu o mais rápido que pôde e encontrou abrigo. Quando abriu a porta não conseguiu ver nada além de escuridão. Buscou o interruptor incansavelmente, mas não obteve sucesso. Arrastou os pés bem devagar e avançou. Conforme prosseguia notava que haviam obstáculos pelo caminho, algumas pedras, duas ou três muretas e muitas quinas que a fizeram desviar. O lugar era soturno e não era possível enxergar nada além de noite, mas, apesar do breu, ela ouvia a todos. Eles estavam ali, isso era nítido. Eles falavam, discursavam e alguns até se arriscavam a gritar. Ela podia ouvir com clareza cada uma das palavras proferidas. Pareciam dizer a mesma coisa, as linguagens eram semelhantes e todas davam a ela a direção de onde ir: “Direita, esquerda, pare, volte, siga, corra”. Ela ouvia, mas não conseguia seguir as instruções, era escuro demais para arriscar passos maiores. Correr, nem pensar.

 

Além da ausência de luz, o ambiente era frio, muito frio, gélido até. Era como se todas as janelas estivessem abertas e o vento entrasse de todas as direções. As rajadas batiam e cortavam a pele até arrepiarem todos os pelos do corpo. Ela sentia até os ossos doerem. A temperatura parecia cair a cada passo dado e ela desejava apenas encontrar o dono de alguma daquelas vozes para lhe aquecer. Um abraço forte já abrasaria sua carne, não era necessário muito. Mas não conseguia encontrar ninguém, eram apenas vozes sem boca, sem corpo, sem calor. Ela chamava, pedia, clamava, mas eles não ouviam, apenas continuavam a tagarelar. “Vire à direita”, “pare um pouco”, “venha até aqui”, “corra para a saída”. Ela já não entendia tudo com a mesma clareza e apenas pedia refúgio, em vão.

 

O frio estava cada vez mais rigoroso e seus olhos não se adaptavam bem às trevas. Era preciso avançar com urgência para encontrar algum calor naquele assombroso lugar. As vozes permaneceram manifestando solidariedade com o momento difícil que ela enfrentava, mas palavras jogadas ao vento não estavam proporcionando o conforto que ela precisava para permanecer de pé e encontrar a saída, era preciso mais, muito mais. Mas como poderia ela, exigir das vozes o toque? Ela já clamava por silêncio, aquele falatório todo a estava deixando desnorteada.

 

O combate só seria vencido se ela encontrasse a luz e o calor sozinha, sem ajuda. Era preciso encontrar uma solução para que ela não congelasse na escuridão e foi então que, mais calma, teve uma grande ideia. Recolheu todo o necessário pelo caminho, escolheu um canto protegido do vento cortante e ali, elucidou toda aquela angústia. Queimou todas as vozes sem rosto e as enormes labaredas clarearam o recinto escuro e aqueceram o álgido corpo. Silêncio absoluto. Era disso que ela precisava, incendiar o caos para encontrar a paz. Ela observou as chamas de esperança e conclui: essa era a fogueira da solidão.

MONIKAJORDAO

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  1. MARAVILHOSO !!!!!!!!!!!!!

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Monika Jordão

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