Cecília

Pediu um café forte e sem açúcar. Acomodou-se na mesa ao fundo – como sempre-, observando o dia alheio começar a dar os primeiros passos. Entre entradas e saídas, para a sua surpresa, ele entrou. Não estava sozinho. Eles pareciam ter tido uma noite ótima! Aliás, estava estampada nos olhos a alegria das ultimas semanas. Ela ouvira a certo tempo que ele não desistira da outra e, pelo visto, o amor venceu a batalha. Pela primeira vez em sua trajetória de escritos, arriscou palavras em lenços de papel. Os olhos dele, naquele instante, já haviam cruzado com os dela e acenou como forma de mostrar que dentro de seu peito já estaria tudo resolvido. A outra também arriscou uns olhares que abocanhavam os dela enquanto a boca sorria com um ar de tranquilidade e atenção, ao mesmo tempo. -Garçom, por favor. Empreste-me uma caneta. -Pois não, senhorita. Aqui está Lá se iam os lenços de papel. “Eu vejo amor nos seus olhos e nos dela também. É como quando tomo o café, entende? Como quando eu chego em casa e escrevo. Eu olho para a caneta e… É como você a olha agora enquanto ela toma o suco de laranja lindamente. Nossa! Olha a sua mão procurando a dela. Essa mão tão linda e tão… linda. Você soube escolher a sua moça com maestria, meu caro! Meus parabéns. Teu sorriso é encantador quando ela sorri também e –quem diria- está ainda mais desastrado. Você está apaixonado, é isso? Você desistiu de toda liberdade para dividir com ela uma prisão de afetos recíprocos? Meu amor. Meu Pedro. Meu. Hoje à noite vou a tua casa investigar sobre esse passeio que está fazendo fora da minha cama e da minha vida, está bem? E amanhã acordarei na escada do teu prédio esperando você sair com ela para o lugar que me levava sempre. Espero que não a leve, meu amor. Espero que ela só acorde e vá embora do teu peito sem dó ou piedade. Sim. Que ela vá logo tomar vergonha e café da manhã em casa. Eu fico por aqui mesmo olhando. Esperando. Tomando o meu, o nosso café sozinha. Até logo. ” Cecília não enviaria aquele bilhete por motivos de cabeça erguida perante todos. Não sairia da lanchonete mais cedo e colocaria-o na caixa de correios dele porque disseram que ela precisaria tomar um rumo da vida que não fosse o caminho até lá. Ele tinha que sentir saudades. Mas havia a outra. Havia ela. Havia aquele amor. Saiu mais cedo.

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