Voltou pra casa cansada depois de um longo e maçante dia de trabalho. Desejava uma ducha quente; queria sentir a água fervilhando pelo pescoço e desaparecer no vapor. A verdade é que Cristiane já não se reconhecia mais: era uma recém-nascida, uma estrangeira no mundo. Nua, diante do espelho, olhou para os seios, para os cabelos curtos e ruivos, para a pele branca, mas não se reconheceu. Cristiane foi mutilada, rasgada, trucidada pelo amor – faltava um pedaço, já não era mais inteira. Imaginem uma mulher que, no lugar do coração, tem um enorme buraco, que lhe atravessa o peito e vai até as costas, esta é Cristiane. O problema é que só dá para ocupar esse vazio com porções graúdas dela mesma. E como dói ter de criar um novo eu.

Saiu do chuveiro, colocou o roupão de banho, foi até o quarto, se sentou na cama – evitou olhar outra vez o espelho – e depois de sacudir os cabelos, se levantou, virou o pescoço e olhou pra estante de livros; há muito nem notava que ela existia – teve uma espécie de epifania. Puxou um livro mal colocado e um perfume peculiar veio junto e lhe invadiu a memória. Os olhos ficaram marejados; se conteve e logo se recompôs. Se vestiu. Foi para sala…

Existe um grande problema em recomeçar: não saber por onde. É complicado encarar tudo a nossa volta e ao mesmo tempo criar uma nova e satisfatória rotina. Cristiane sabia disso, tanto sabia que decidiu encarar a realidade e tratar a si mesma como uma estranha: ofereceu café, convidou para dançar, ver o mundo… Estava apresentando a vida para ela mesma (e já fazia bem um tempo que vivia assim). Ricardo foi um pancada e tanto, doeu pra caramba; e o desgraçado sumiu com aquilo que ela fora um dia: as flores que gostava, o jeito de ninfeta gentil, tudo, tudo Ricardo arrancou dela. E por mais que se esforçasse, não conseguia retroceder ao ponto onde estava antes da chegada barulhenta dele. Realmente, tinha de nascer de novo.

Da janela do apartamento, Cristiane apresenta as belezas da cidade grande para seu novo, e desconhecido, eu estranho e confuso. Sem saber direito do que se tratava aquilo, a estrangeira gostou do que viu. O vai-e-vem dos carros, as luzes piscando, o barulho e o cheiro da vida deixaram Cris sorrindo levemente. Pois é, se reencontrar tem dessas coisas: aquilo que antes era visto no automático ganha efeitos pirotécnicos incríveis – o que é até legal.

“Por que a ausência intensifica o amor”, perguntava a estranha. Sem reposta para dar a si mesma, Cristiane decidiu que o silêncio era a melhor todas as respostas. Optou por não dizer nada, apenas se oferecer chocolate quente.

No corredor que dá para a sala, uma foto dos dois (Ricardo e Cris) chamou a atenção da estrangeira. Quem era aquela mulher? (De novo não se reconheceu.) Tão bonita… Sorridente nos braços de um rapaz que parecia estar igualmente feliz. Cristiane teve ódio de si mesma nesse momento e arrebentou o porta-retrato de vidro contra a parede. Cortou as mãos. Neste momento não teve jeito: a dor se transformou em lágrimas e sentiu o coração espremido, sem piedade, pelas lembranças grosseiras que ainda vivem dentro dela.

Ao juntar os cacos Cristiane foi acometida por uma melancolia aguda… Não queria sofrer, mas tudo que tinha era sua dor. E o resto,? Bom o resto era só o resto. Era uma estranha. Uma estranha que ela chamava de “eu”.

flavio

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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