“Hoje você vai encontrar o amor da sua vida”, era o que estava escrito em uma dessas imagens de Facebook, de uma página que eu mal sabia que seguia… Mas a imagem estava ali, na tela do meu celular, logo cedo, e me tirou uma gargalhada entre uma tentativa e outra de sair da cama e enfrentar a sexta-feira, que, graças aos céus, terminaria mais cedo, graças à uma consulta médica. Levantei da cama e fiquei pensando na bobagem que havia não apenas lido, mas enviado para um grupo de amigos no WhatsApp. Todos eles riram comigo, mas o cara que é meu irmão de vida fez questão de me dizer: “Cuidado hein, cara, dizem que essas premonições que vem do nada vingam sem a gente perceber”. QUE BESTEIRA! Me vesti, tomei meu café e meus suplementos, e fui enfrentar o último dia da semana.

 

Mas encontrar o amor da minha vida onde? No trânsito que não é. Nessa porcaria de escritório, também não… E como ela seria? Passei o dia tentando traçar mentalmente como seria o amor da minha vida… Cabelos, olhos, estatura, sorriso… Mas no grupo dos meus amigos, repetia a mesma frase: “Mano, não tem isso de premonição e sorte do dia, minha sorte quem faz sou eu”, e só recebia “vai nessa, bestão”, como resposta. No fundo eu queria acreditar que encontraria essa moça perfeita pra mim, mas eu só pensava no fato de que, há uns anos atrás, eu a deixei escapar pelos meus dedos da forma mais egoísta que poderia haver. O espaço em branco ainda era dela, e agora, anos depois, tudo o que eu queria, era dizer que eu consegui mudar aquelas coisas ruins nos meus hábitos, e aquele egoísmo gritante, que a fez ir embora, avisando que iria, sem nem ao menos passar do tapete de boas vindas para a parte de dentro da casa. Ninguém é como ela, e é por isso que aquela imagem era tão absurda e engraçada. Ninguém tem 5 tipos de olhares e nem 7 tipos de um sorriso estonteante, e um tom de voz totalmente diferente de tudo, ao falar sobre coisas extintas e distintas… Só ela. Que foi embora. E está muito bem na vida, não precisa de mim, e talvez eu também não precise dela, mas seria bom se pudéssemos caminhar de mãos dadas. Eu não soltaria aquela mão por nada. Não mais. Nem por mim, nem pelos meus problemas, nem pelos meus amigos, nem pelos meus prazeres, nem pelas minhas dores, por nada.

 

Meu médico me disse que eu estava com cara daquele tipo de gente “surtada”. Merda de imagem inútil! Mas tudo bem, a gente toma umas cervejas à noite e fica tudo certo de novo! E assim, eu saí da minha casa e me encontrei com os meus amigos, naquele bar onde uma banda que eu não conhecia até então faria um cover sei lá de quem. Cheguei cedo e não peguei fila. Já estava estava com uma cerveja na mão quando o meu coração parou. Aquela mulher tinha um dos 5 tipos de olhares, mas não poderia ser ela… Até que aquela mulher sorriu, inconfundivelmente. Era ela. E não se tratava mais de uma menina-moça, mas de uma mulher. Tão linda quanto antes, e tenho certeza, ainda única. Eu olhei insistentemente, até que o terceiro olhar dela, o mais peculiar, cruzou com o meu, e passou do terceiro para o quinto olhar. E o sorriso de número 4 se formou naqueles lábios. As amigas saíram andando em fila indiana, passando no meio das pessoas, e se direcionando para algum lugar que seria mais ou menos próximo de onde eu estava. A primeira cortou a minha roda de amigos e elas foram passando… nem vi quantas foram, meu olhar acompanhava o dela, e só. Sabe lá Deus para onde as amigas foram… que se dane! Ela estava a dois passos de mim quando parou feito uma estátua. Na minha mente eu só pensava em duas ondas que se chocam e formam uma só. Elas viajam o oceano inteiro, por anos à fio, através de gerações, para chegarem na coordenada geográfica exata, no mesmo dia, no mesmo horário, em que até os segundos são os mesmos. E elas colidem, se chocam, formam uma só e voltam para o mar, iniciando novamente a busca de uma pela outra. Ela estava ali. Anos depois, parada na minha frente. E eu a chamei pelo nome. E então um novo olhar se formou… o sexto olhar! Não sei quanto tempo nós ficamos assim, e pouco me importa. Eu ensurdeci e só voltei a ouvir quando ela disse “que bom te reencontrar”. Eu finalmente beijei aqueles lábios, segurei uma das mãos perfeitas dessa moça e fiz questão de envolvê-la no meu abraço. Ela não resistiu em momento algum e eu contei tudo pra ela, bem baixinho, no pé do ouvido, pro resto do mundo não escutar… Bastava que ela soubesse o que a vida já tinha me visto fazer e sentir. Depois, as amigas me contaram o que ela nunca deu o braço à torcer: ela sempre me amou, e sempre esperou por um reencontro. “Eu não vou te deixar escapar pela segunda vez” e “eu não vou embora de novo”. O oitavo sorriso nasceu, e se escondeu entre os cabelos escuros e o meu peito.

 

A verdade é que essas premonições que a gente julga imbecis vingam sem que a gente perceba. Aquela imagem era um aviso de Deus e da vida: hoje você vai ter a sua segunda chance. Fique atento e não desperdice. Eu pensava que fazia a minha própria sorte, mas vi a sorte ser refeita bem diante dos meus olhos, no momento em que a vi dando um dos seus 8 e inconfundíveis sorrisos. Quando a gente acha o próprio umbigo muito importante, a vida nos mostra aquilo que realmente importa. Nos dá um tapa na cara, nos tira aquilo que amamos de uma maneira tão frágil, e nos ensina a valorizar aquilo que temos. Ela nos põe todo infortúnio de gente enganada e enganosa no nosso caminho para que então nos traga a única pessoa que faz sentido. E que nós saibamos valorizar e cuidar para que essa pessoa singular fique. Não acontece com todo mundo, felizmente. Mas aconteceu comigo e eu aprendi a minha lição. Onde eu estou agora? Dentro de uma joalheria, escolhendo o anel que vou segurar na mão direita, enquanto, de joelhos, olho nos olhos dela, e faço a tradicional pergunta que ela sonha em escutar: “Você quer se casar comigo?”

debora

 

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Débora Cervelatti

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