Eu estou sozinha, mas parece que esse quarto está tão apertado. Tem muitas coisas aqui. Tem todas as nossas lembranças. Tem aquele sorriso que você deu depois do nosso primeiro beijo. Tem ainda aquele teu olhar tentando me entender quando eu me perdi nas palavras, na tentativa de me explicar. 

Mas chega de falar dessa tralha toda. Preciso abrir espaço aqui, porque já não consigo respirar bem. Não estou conseguindo ver a vista da janela, teus olhos brilhantes estão na frente e eles serão os primeiro que atirarei aqui do alto. 

Preciso tirar também o toque das suas mãos, que estão travando a porta, ele têm me impedido de abri-la. Pessoas batem, chamam, mas não consigo atender. Então, não me leve a mal, mas é que o quarto ficou pequeno. Não tem mais espaço para nada que remonte o passado aqui. 

Sim, passado. Demorou mas você entrou nesse baú. Não entenda como algo ruim, na verdade eu relutei muito para fazer isso. Ao assinar essa carta atestando isso, lágrimas rolavam do meu rosto, enquanto um pop empolgante tocava. Era como se cada verso me puxasse, me arrastasse para fora do quarto. E de repente, a noite era dia e o inverno era verão. 

Foi como piscar os olhos, mexer o suco e abrir a porta, coisa de segundos. Interessante como levei tanto tempo para organizar essa bagunça, enquanto a vida só precisou de alguns segundos para me mostrar o mundo além dos seus olhos, para me mostrar o amor além dos seus beijos e afagos. Se eu tivesse que descrever esses míseros segundos, descreveria em prazer e nada mais. Que prazer? Aquele que toda mulher sente na TPM, quando come um brigadeiro, ou aquele de criança, quando depois de uma birra enorme ganha um doce. Me sentia assim depois de tanto lutar e relutar, de frente com a vida. 

Demorou, mas eu consegui. Limpei o quarto, deu até para trocar as cores das paredes. Veja bem, por mais que seja complicado te dizer isso, eu preciso dizer. Eu joguei tudo fora. Não guardei nada, fiz uma faxina completa e se amanhã você precisar de algo, comece de novo, é isso que tenho feito. Olha, não tenha medo. Só te digo isso: não tenha medo.

Eu sei que pela frente você não vai encontrar tanta paciência e tanto carinho assim, afinal a vida tem um jeito estranho de explicar as coisas. Mas não precisa temer, porque amar, ainda que seja difícil, continua sendo o melhor de todos os remédios…

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  1. Muito bom

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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