De repente ele estava diante de um portão pouco convidativo. O lugar parecia inóspito, sem vida, ou melhor, procurando vida. Era um lugar que carecia de uma reforma, de bons tratos. Muitos não ousaram ultrapassar os limites do portão, não era nada receptivo. Mas aparentava não ter sido sempre assim. Parece que quem cuidava do lugar deixou tudo se deteriorar com o tempo. O semblante era muito triste. 

Parece contraditório, mas ao mesmo tempo aquilo tudo era muito atrativo, apesar de ser triste. Quem teria coragem de adentrar? Quem doaria seu tempo para transformar aquele lugar em um ambiente melhor? Afinal, com uma reforma e cuidado aquilo se tornaria belo. Ele pensou um pouco, se valeria a pena investir seu tempo na ajuda para reerguer tudo. Teria muito trabalho. Como falei, poucos arriscaram, só andando pelo jardim. Mas algo dentro de si o chamava para esse desafio.

Não quis saber, adentrou o portão. Andou em direção à porta através de um caminho feito de pedras, todas colocadas lá a pouco tempo. Certo momento ele parou para observar no espaço entre as pedras ali postas, e viu que embaixo daquele pedregulho havia uma superfície lisa, limpa e brilhante. Aí ele teve a certeza de que quem morava ali não queria mais ninguém por perto. Mesmo assim ele continuou pelo caminho, vendo aquele jardim que estava com uma aparência seca e morta. Ele pensou, ainda duvidoso: “Eu vou conseguir reanimar isso? ”. 

Chegou diante da porta que parecia trancada, e viu que ela estava apenas travada. Forçou um pouco a maçaneta e nada. Pensou em arrombar, mas achou que aquilo iria prejudicar ainda mais. Veio logo à sua mente: não é força, é jeito. Viu também que muita gente tentou forçar a entrada – sem sucesso. Ele só precisaria achar um jeito incomum… e conseguiu. Não foi fácil, mas entrou na casa. 

A visão era completamente fria: móveis empoeirados e outros cobertos no saguão principal, e uma série de coisas quebradas. Alguém entrou aqui, fez uma bagunça e foi embora. Ele acreditava que depois que deixaram tudo naquele estado, quem habitava na casa não se interessou em arrumar a bagunça. E ele precisava saber quem cuidava daquele lugar, quem ele precisaria ajudar. Queria descobrir como aquilo chegou a tal ponto.

Um pouco mais à frente havia um quarto com a porta quebrada. Aliás, tudo estava quebrado neste quarto, reconstruí-lo daria muito trabalho e demandaria tempo. Livros estavam jogados por todo lado; alguns cd’s espalhados. Enfim, estava tudo um caos. 

Ele se perguntou: Por onde vou começar? 

Depois que lhe fez essa pergunta, viu que havia também outro quarto no alto de uma escada, que era de difícil acesso. Objetos foram postos no caminho na intenção de dificultar a passagem de quem ousasse ir até lá. Mas ele já havia adentrado tudo aquilo, então não iria desistir. E ele conseguiu, chegou à porta. Estava trancada, e algo dizia que a chave estava perdida por toda aquela bagunça. Então teria que arrumar tudo, achar a chave para poder entrar naquele quarto, e descobrir quem realmente morava ali.  

Essa é a história de um rapaz que conheceu uma garota desiludida da vida, desacreditada do amor e com um jeito de quem sofrera uma grande decepção, deixando marcas profundas. Quem tentava conhece-la, mal chegava nos portões, pois viam grandes barreiras emocionais. Vários homens desistiram de adentrar ao seu lar, pois ela colocava pedras no caminho daqueles que se aproximavam. Dificultava entregar-se para um novo relacionamento. 

Mas ele sentiu-se atraído por sua beleza, ainda que malcuidada. Além disso, sabia que ali dentro morava um mistério, e apesar das dificuldades impostas para que não avançasse no relacionamento, ele resolveu entrar. Até ali, eles só tinham ficado uma vez, mas foi o suficiente para que ela o atraísse para ir afundo. Ver a relutância dela o levou a lembrar de uma letra do Tom Jobim, na qual fala: “Acorda, amor, eu sei que embaixo dessa neve mora um coração.” E era lá que ele queria chegar. Ele conseguiu entrar em seu terreno, que era a área de segurança dela. Após isso, a conquistou entrando de forma carinhosa em sua casa – o seu corpo. E lá descobriu que seus sentimentos foram machucados, os tornando frios. Além disso, deixou que sua autoestima decaísse. Não se arrumava mais, apesar de ser uma linda mulher. Assim, a sua insegurança afastava outros homens. Mas ele conseguiu criar um laço afetivo, o suficiente para ajudar a restaurar todas as suas forças. Aquele quarto todo quebrado era sua confiança nos outros, onde tentava ler livros para tentar esquecer quem havia quebrado, mas acabava por ouvir músicas deprimentes e embriagando-se de vinho. Consertar o quarto da confiança precisaria muito da ajuda dele, pois tornar a confiar em alguém novamente é algo que precisa de um trabalho duro e de cumplicidade. 

Por fim, a porta no alto da escada era a entrada para o seu coração, trancado para que ninguém mais destruísse o que restava dele. Ela estava lá trancada naquele quarto, e há tempos ninguém tentava abrir aquela porta. Ninguém ousava conhece-la a fundo. Ninguém mais havia mostrado interesse em realmente conhecer a pessoa trancada ali. A chave estava no meio daquela bagunça, ou melhor, a chave era a bagunça. Se ele conseguir ajudá-la a reconstruir tudo, talvez conquiste a entrada em seu coração.

 

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Jhonata Santos

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