Depois de matar – com a faca cega e aguda da racionalidade – seu último demônio, Demétrio se dizia pronto. Pronto para viver a vida; sem paixões ou devaneios tolos, típicos dos homens medíocres. Era agora, completo, senhor de si, o próprio príncipe Hamlet reencarnado em alguém melhor do que fora aquele dinamarquês estúpido e mal humorado. Mas, não foi fácil chegar até aqui. Estrangulou, trucidou, decapitou ou matou de fome cada desejo que habitava a verve de sua alma. Demétrio agora era carcaça, um esboço, um rascunho de um novo ser que estava pronto para ser moldado pela própria vontade. 

Resolveu caminhar pela cidade. Estava frio, muito frio. Passou pela estação e viu rostos abatidos e distraídos, mas não se comoveu. Seguiu. Quem observava Demétrio poderia afirmar de que se tratava de um terrorista, ou um psicopata. Tinha a barba volumosa, cabelo negro cumprido e sujo, e trazia consigo um olhar gélido, sem brilho; as pupilas eram estáticas – não se via a alma através delas. Foi até a pracinha da igreja e sentou-se em um dos bancos. Ficou horas contemplando o nada. Por dias visitou o local. 

Em uma dessas visitas encontrou Gabriela. Estava sentada de frente para ele, perdeu a visão do nada. Tinha agora, diante dos seus olhos, uma beleza rara, exótica, de sorriso desenhado pelos deuses do olimpo, de cabelos encaracolados da cor de mel. E a infeliz tinha o ingrediente que torna uma mulher ainda mais bela: era triste, de alma complicada. Demétrio, o livre, mudou de lugar e continuou a observar seu próprio vazio e o nada. A moça logo notou algo estranho, precisava decifrar aquele homem. 

Tímida, sempre observava de longe. Algumas vezes chegou a ter medo do mal-encarado, mas dominou o tremor nas pernas e resolveu segui-lo pela pracinha. Demétrio notou a presença dela. Resolveu conversar, afinal, era livre e desprovido de prazeres. Só que algo naquela mulher fazia-lhe refletir além da conta. Teve curiosidade. O tempo, esse desgraçado destruidor de tudo e de todos, logo tratou de pregar uma peça no mais racional dos homens. Perto dela, disparavam-se os ponteiros e horas se convertiam em minutos; longe dela, as horas se passavam arrastadas, custosas. Houve dias em que Demétrio quis ir mais cedo ao parque. Estava preso nesse cromo de ansiedade, angustia e curiosidade pela moça, que mal notou que um velho inimigo estava à espreita. 

Gabriela estava cada vez mais animada com o novo amigo que, aos poucos, ganhava mais espaço no coração dela. Ele, por sua vez, estava a ponto de se desiquilibrar, de cair de joelhos e ser vencido. O inimigo continuava a espreita e via o adversário se enfraquecer a cada sorriso que a moça lhe oferecia gratuitamente. A peste já estava quase agarrando seu corpo e consumindo sua alma. 

Num domingo qualquer decidiu que não esconderia mais nada, que falaria a verdade, que entregaria para aquele turrão todo o amor que tinha contido, que lhe bagunçava o espírito. Demétrio achou estranho, nunca havia se encontrado com a moça num domingo, ainda mais à noite. Foi preparado. Ficou pensando no caminho que diabo havia acontecido. 

Quando chegou na pracinha da igreja, encontrou Gabriela diferente – estava linda, é verdade, mas não era só isso. A moça veio correndo, sorrindo, lhe abraçando, dizendo que tinha boas novidades! Ficou ainda mais desconfiado, começou a olhar a sua volta (e em seu interior) a procura dos velhos inimigos. Sabia que alguns demônios eram difíceis de matar, principalmente o do amor. Se manteve alerta o tempo todo. Gabriela vomitou em cima dele palavras envenenadas com carinho e amor, banhadas em sorrisos bobos e tímidos. Esperto, armou o golpe! Pediu um abraço. Colocou Gabriela cuidadosamente debaixo do seu peito e apoiou o queixo em sua cabeça. Depois, sacou o punhal da racionalidade e cravou (com ódio e fúria) nas costas dela, e riu copiosamente. A faca atravessou os pulmões e rasgou em cheio o coração da menina. 

Gabriela viu o ferimento aberto e se afastou; ele a segurou pelo pescoço e a olhou no fundo dos olhos – procurava o inimigo. Não encontrou, ficou assustadíssimo! Foi nesse instante que percebeu que matou a criatura errada. O demônio do amor e o demônio da culpa gritavam na cabeça de Demétrio, comemoravam o triunfo. E riam, riam alto! O mais racional dos homens foi derrotado por si mesmo, foi vítima de uma escolha infeliz. Para os demônios não havia prazer maior. 

Demétrio viu Gabriela agonizar, uma morte lenta e dolorida, sem poder fazer nada. O sangue da moça lavou a calçada da igrejinha. Queria morrer no lugar dela. Um turbilhão de ideais lhe invadiu a cabeça. Ficou zonzo, disperso, triste. Agora, um novo demônio habitava seu corpo: o demônio da culpa. Demétrio sabia que esse não se mataria tão fácil. Voltou abatido pra casa, preparou um haraquiri, mas estava covardemente fraco para retirar a própria vida. Preferiu ver seus demônios voltarem um a um e lhe devorarem por inteiro, pele e alma. 

  


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Participe da conversa! 2 comentários

  1. Autor de fino trato com a cena, descrevendo-a em detalhes, envolve o leitor, Parabéns pelo texto.

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  2. Maravilha!

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Flávio Sousa

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