Sentiu o amor pela primeira vez quando estava na quinta série. E foi assim, do nada, como um relâmpago. O coração do pobrezinho foi martelado com tamanha violência que ficou tonto, enjoado e percebeu a visão meio turva. Em sua mente, a imagem de Ana ficava cada vez maior, como se ela invadisse os pensamentos dele e assumira, imediatamente, o controle de suas pernas, braços, mãos e até a respiração! Passou. A sensação foi embora, do mesmo modo que veio: como um suspiro. Deixou de amar Ana, mas foi duro esquece-la. Era uma garota alegre, inteligente e gostavam das mesas músicas. Só que acabou, nem ele soube explicar como.

Cresceu. Agora era homem – de barda e tudo. Bem sucedido e escandalosamente lindo, apesar de não o confessar em público, pois achava um charme negar a rara beleza que tinha e ser elogiado logo em seguida (que narciso, santo Deus!). Vivia cercado das mais belas mulheres; era boa pinta, é normal isso acontecer com caras como ele. Só que a sensação, aquela que teve quando olhou para Ana, havia sumido. Por algum motivo inexplicável nunca mais sentiu de novo, mas isso não era incomodo. Adorava a vida boêmia. Dizia que “a cada novo olhar, nasceu uma nova aventura”. E era assim mesmo! Tinha o trato fino com as mulheres, impostava a voz ao falar com elas, e olhava, de forma devoradora, para dentro da alma delas. Pouquíssimas não se entregavam. E quando não se entregavam, não se deixava abater. “Há um monte de vocês por aí”, dizia.

Um dia desses, no parque, viu um rosto que o deixou aterrorizado. Que mulher, que formosura, que flor! Precisava possuí-la, pelo menos uma vez. Sempre pensava que seria uma única vez, não se deixava grudar, como ele mesmo costumava a dizer. Seguiu a moça, mas a perdeu de vista. Jurou que procuraria em cada canto, cada festa, cada subúrbio, cada prostíbulo, até encontra-la e satisfazer sua vontade. Pobre diabo! Nunca mais viu. Só que tinha gravado o maldito rosto na cabeça e não conseguia esquece-lo. Mas deixou isso bem guardado no seu interior.

E o tempo, esse carrasco dos galãs e devorador de vidas, passou também para ele. Ficou doente, teve câncer, estava prestes a morrer e sabia disso. Como um último desejo quis voltar ao parque de sua juventude. Por anos ficou com aquele sentimento, morno, meio nostálgico, de rever aquela formosura de moça e, quem sabe, até se deitar com ela. Sentou-se no mesmo banco, como uma forma de fazer uma viagem no tempo, e começou a olhar a sua volta. Como eram bonitas as árvores daquele lugar! Nunca reparou nelas. Era início de outono; as folhas coloriam o chão de uma forma única. Era como um tapete.

De longe uma moça caminhava, lentamente, ao lado de uma anciã. Com a visão turva não viu se era feia ou bonita a senhorita – nem reparou na velha! Apesar da idade avançada, sabia admirar, como poucos, os traços delicados e lisos de uma bela jovem. À medida que as duas se aproximavam, sentiu algo estranho: o coração batia descompassado, a respiração ficava ofegante e, de súbito, uma lembrança. Era a mesma sensação da quinta série, quando viu Ana! Era bom sentir aquilo de novo. Estava amando outra vez. Que saudade sentiu daquele sentimento que desde muito havia desaparecido de sua vida. Mas, logo algo mudou. Ficou calmo, respirou fundo, a visão foi ficando mais e mais turva e de repente… Desapareceu, morreu ali mesmo. Sem sussurrar as palavras que tentava balbuciar quando se aproximaram a velha e a moça.

A senhora, ao perceber que o homem na sua frente estava morto, caiu num choro profundo. A jovem, que era sua neta, perguntou:

― Que foi vovó?

A velha respondeu:

― Pensei que um dia ele fosse se declarar pra mim.

― Está louca, vó Ana. Vem, vamos embora. Vou chamar o enfermeiro dele, que deve ser aquele homem ali, e ele que tome as providências. A garota ainda pensou: “Pobre coitada, nunca viu o homem e morre de amores por ele”. Riu-se.

A velha não quis insistir, pois sabia que seria tomada com esclerosada. E enquanto a neta chamava o enfermeiro, a velhinha admirava o cadáver com afeto e o mais sincero dos amores e pensava: “Olhei tanto pra você naquele dia, na escola, mas você não disse nada, por quê?”. Por vezes também se indagava: “E aqui, no parque, aquele vez, por que foi atrás da outra moça e não de mim, que vinha logo atrás e ainda lhe gritei?”. Chorava muito. Meses depois, a também morreu. Sobre o ocorrido no parque, até hoje muitos discutem se o velho garanhão sentiu amor, ou era apenas ânsia de morte. Ninguém sabe. 

flavio

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  1. Muito bom!

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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