A definição de amor sempre lhe causou aflição e medo. Era doloroso, para Amélia, imaginar um sentimento tão profundo e agudo, capaz de estilhaçar seu frágil coração de vidro. Todas as noites, ela rogava a Deus para não cruzar com alguém capaz de atingir seu âmago e lhe encher com borboletas o estômago. Só de imaginar este dia, se arrepiava inteira; encolhia os ombros e se enrolava aos joelhes, como quem abraça uma bomba para conter a explosão.

Amélia quer dormir, mas não consegue. Tem a mente em chamas e dispara ideias, imagens e sensações com a violência de uma metralhadora num campo de batalha na Palestina. Lá fora, a chuva segue miúda, o barulho dos pneus dos carros e a música brega do rádio são suas únicas companhias. “Que droga de vida”, afirma com seus botões. Não tem um amigo sequer para compartilhar sua insônia e falar bobagens, rir dos casos do trabalho, da raiva que passa com os vizinhos sem graça e incultos.

A Crônica da Casa Assassinada já não lhe serve mais de consolo em noites turvas e de profunda perturbação e agonia como esta. Prefere pensar na morte, em vez de pensar no amor. Um tombo no banheiro, um incêndio, uma cacetada na cabeça, uma punhalada certeira bem no meio do peito e que fizesse seu coração de vidro se transformar em miúdos cacos de variadas formas geométricas. Mas amor, jamais! Não queria amar – embora já tenha chegado perto várias vezes.

Amélia se transformou em uma mulher de áurea obscura e cinzenta – como um céu em dias tempestuosos. Tinhas os olhos caídos e rodeados de enormes olheiras; a pele era pálida como a de uma vampira de Bram Stoker. Nunca conheceu a doçura, por onde passou foi tratada a palavras de ferro e agressões em fogo.

Os vizinhos do prédio diziam que ela era “mal amada”, homens os pobres de espírito e sujos como porcos, afirmavam que era “mal comida”. Saia muda e volta calada, de segunda a sexta; nos finais de semana ficava trancafiada em casa, sem receber visitas. De seu apartamento, bem baixinho, ecoava uma melancólica e desesperadora canção do Pink Floyd, banda que aprendeu a ouvir há muito, uma herança de berço. E há muito também não vê ou fala com os pais. Soube recentemente que a mãe estava adoentada e o pai exausto, marcado pela dor de ver a mulher desfalecer pouco a pouco. Não podia ligar ou escrever, estava ocupada. Iria entrar em contanto, sem falta, na semana que vem (faz essa promessa há seis meses).

Pouco se sabia sobre ela: vinha do interior e ganhava a vida como professora. Baldo, o vizinho de porta, que era caprichoso ao extremo…, dizia que pobrezinha sofria de depressão. A moça já havia abandonado o rivotril – o psicanalista dizia que ela já estava curada, que vencera todas as etapas da terapia, mas Amélia se sentia incompleta, vazia. “Estava na mais completa solidão do ser que é amado e não ama.”

O sol já começa a invadir a sala, pelos buracos da cortina, a música brega do rádio dá lugar a uma vinha animada e estupidamente feliz que anuncia o primeiro locutor do dia. Amélia se levanta e sente sua cabeça pesada, tem ânsia de tontura, mas se firma e vai para o chuveiro. Seu corpo dói, pois não conseguiu relaxar um músculo sequer nessa noite, pois passou em claro.

Na cozinha apertada, e cheia de louças por lavar, começa a preparar o café. Ao ouvir as primeiras notícias do dia se sentiu enjoada. “Homem esfaqueia namorada após desentendimento”; “Semana será de chuva…” “Taxa de desemprego aumento e milhares ficam sem rendimentos fixos.” Engoliu o café junto com suas dores e tratou logo de ir para o trabalho, rever as crianças, sentir o cheiro da merenda sendo preparada… Talvez tivesse paz após uma noite truculenta…

À noite, ao retirar os sapatos para aliviar os dedos e calcanhares calejados, se debruça no sofá e sente sua respiração diminuindo, diminuindo, diminuindo e por fim apaga. Vem até ela uma luz branca, branca como nunca virá antes em sua vida. Começa a ver seu corpo de cima, depois todo o apartamento, e continuou a subir, e viu agora o prédio, as casas da vizinhança, o bairro, a cidade inteira, o estado o país e por fim… desapareceu. Amélia foi embora feliz, se sentiu liberta do fado pesado esdrúxulo que é viver.

Duas horas depois, os paramédicos chegaram e encontram o corpo da moça repousando como se estivesse no mais delicioso dos sonos. A pele estava ainda mais branca e pálida, mas trazia no rosto uma expressão serena, como se tivesse partido dando gargalhadas.

Seu Baldo quem percebeu a quietude da vizinha de porta e ficou desconfiado. Chamou a emergência. O médico legista disse que ela morrera de um ataque cardíaco, que teve todo o coração dilacerado numa única valvulada violenta e abrupta das artérias coronária. Seu Baldo, embora fofoqueiro e caprichoso, esboçou um comentário interessante sobre a passagem da professora: “Pobre Amélia, protegeu tanto seu coração de vidro, que este se explodiu sozinho, pois não suportou a pressão de sua defensora”.

flavio

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Participe da conversa! 4 comentários

  1. Ai, doeu fundo!!! Que coisa linda de se ler, mas terrível de sentir!!! Flávio, Flávio, estala coração de vidro!!! Ah, o amor!!!

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  2. Oi adorei o texto, sera que poderia por um texto meu aqui no site?

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  3. Lindoo!

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  4. Que perfeição de texto! Que talento! Quem dera eu tivesse essa habilidade com a qual você escreve!

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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