Peguei minhas roupas, as coloquei na bolsa que levo para a escola e pretendo sair de casa. Resolvi viajar por aí, conhecer outros lugares. Já pensei em tudo: coloquei dentro da mochila todo tipo de alimento que encontrei na geladeira, só pra eu manter a alimentação por alguns dias antes de arrumar um jeito de conseguir mais. Vou usar todo o dinheiro que juntei ao longo desses anos – analisando aqui, já é o bastante para o começo da viagem.

Vou falar para minha mãe que irei largar os estudos, pois sinto que devo me aventurar por aí. A Ana, minha parceira de estudos, disse que ainda é muito cedo para tomar uma decisão precipitada. Mas eu preciso sentir essa emoção de sair sem rumo, desfrutando cada momento e enfrentando os desafios mundo a fora.

Essa vida de calmaria não é pra mim. Quero sentir a emoção de estar perdido. Experimentar um pouco de cada lugar: culinária, amores, aprendizados… Quem sabe eu não escreva um livro sobre toda minha experiência. Pessoas da minha idade não costumam fazer isso. Mas não quero a cartilha dos bons comportamentos. Eu sei, pode parecer um pouco rebelde e inconsequente. Posso até cair por aí e ficar sozinho, mas a gente aprende. Sinto a independência correndo em minhas veias, então preciso ir de peito aberto ao mundo.

Há alguns anos eu ainda dependia bastante dos meus pais para fazer as coisas. Se bem que no momento ainda são eles que respondem pelos meus atos. Mas quero tirar esse peso das mãos deles. Me sinto um pouco culpado por isso.

Isso me trouxe a vontade de aprender coisas novas. Por exemplo: estou aprendendo inglês, pois tenho planos de ir morar em outro país. Meu pai está me ensinando a tocar violão, já dá pra tocar algumas músicas, só preciso me aperfeiçoar mais. Posso tocar em alguns lugares e ir juntando um dinheiro. Quando voltar, já serei um cara bem de vida.

Enfim, estou colocando tudo em ordem antes que…

Minha mãe entra no quarto com uma expressão de descontentamento. Vê o estado de bagunça. Boa parte das coisas estão na mochila. Ao ver aquilo ela pergunta: – Por que essa bagunça, meu filho? Já quebrou o cofre que sua avó lhe deu? Antônio, já lhe falei, você só tem seis anos, ainda não tem idade pra sair por aí, meu filho. – Minha mãe sempre vem com essas mesmas palavras. Da última vez que tentei fugir, ela me pegou bem na calçada de casa. Mas ela sempre me pega lá, até porque não consigo passar desse limite – tenho medo do cachorro da vizinha, ele é grande.

Pensando bem, concordo com a mamãe. Preciso crescer um pouco mais para ir em busca dos meus objetivos. Igual aos homens do filme, que saem por aí salvando o mundo.

Quem sabe daqui a algum tempo eu não consiga chegar lá na padaria da esquina. Mas vejo que a mamãe sempre duvida da minha independência. Mal sabe ela que eu já fiz minha própria casa lá na sala – só tenho que avisar que usei as almofadas e travesseiros dela.

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Jhonata Santos

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