“Sabe, Yulle… a vida é boa demais!”. Eu não sabia, mas ali começava uma série de poucas palavras que traziam um significado tão forte quanto o brilho que enxerguei nos olhos da Dona Iraci. Minha vó, com essa simplicidade e o cuidado de sempre, contava um caso num sábado à tarde, sentada à mesa enquanto eu e minha irmã almoçávamos. Na verdade, ela deu um aula de vida em dez minutos.

“Mesmo sem andar direito há cinco anos, eu não acho a vida ruim não… Eu tenho meus netos que lembram de mim, ligam pra conversar comigo e saber como é que eu tô. Eu tenho meus filhos que tão tudo com saúde e com a vida encaminhada. Tem que agradecer a Deus!”, ela continuou, me dando uma surra de experiência.

Minha cabeça voou em mil pensamentos e situações ao longo daquela tarde com ela. Do alto de seus 82 anos e das dificuldades que já superou e supera todos os dias, ela estava me lembrando que o importante é sermos gratos. Por tudo e por todos que, de alguma forma, fazem nossa vida ganhar cor e ser mais doce. Sermos gratos pelos gestos simples, por quem nos dá uma palavra de carinho, por quem nos faz sentirmos queridos. Gratos pelo que a vida nos faz passar, das alegrias às tristezas, porque até quando a gente não entende e se sente injustiçado, estamos aprendendo.

Gratos de coração, de verdade e sem esperar nada em troca… gratidão não é obrigação. Mas é renovação. Às vezes só temos que parar um pouco e observar ao redor. Observar que ainda há solução se agirmos pro bem, valorizando aquelas coisinhas que passam despercebidas no meio da correria. Valorizando as pessoas que permanecem ao nosso lado e o que elas são capazes de fazer por nós. Já parou pra pensar em quantos já te estenderam a mão, o braço e o abraço? Agradecer não é feio, sabe?! Ninguém perde por ser grato e por expressar isso de alguma forma. Cada um encontra uma maneira, o importante é externar. Eu acredito muito que gratidão é energia, que se converte e se espalha, que ganha força e traz esperança. Precisa (e deve) ser “passada pra frente”, colocada pra fora. Ninguém diminui. A gratidão engrandece o espírito!

Sem saber, minha vó me fez lembrar de tanta gente e tanta coisa que estava lá no fundinho das memórias… histórias cobertas de pó, “esquecidas” e guardadas. Como se fossem enfeites bonitos, mas empoeirados e deixados no porão, esses momentos precisavam ganhar mais atenção e cuidado. Ser colocados em evidência de novo, na estante que é a vida. Limpos e cheios de luz.

Ela me lembrou que a vida tem mais sentido quando reconhecemos e agradecemos o presente que é estar aqui. Me lembrou também, com meia dúzia de frases, que a gratidão é bonita demais. Me emocionou e eu engoli o choro naquela hora. Não devia… devia era ter dado mais um abraço nela e dito: Obrigada, Vó! A senhora tem razão… A vida é boa demais!

E quando não for, a gente que faz ficar!

Yulle

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Yulle Marques

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