Se você soubesse como está frio aqui, viria correndo pra cá me enrolar no seu abraço. Sei que já faz muito tempo e que você se reergueu, mas eu continuo no mesmo lugar onde me deixou. Não há saídas, mas dói tanto pensar que tenho que te apagar da memória e recomeçar. Recomeçar, meu Deus, como isso é difícil! Juro que estou tentando. Só que você deixou feridas profundas que insistem em sangrar.

Aqui em casa está tudo igual; nem desmanchei sua gaveta, porque na minha cabeça você foi buscar café pra gente e vai voltar logo… Vai me contar como foi seu dia, as brigas com o chefe, os perrengues com a faculdade e depois me pedir colo. Como tenho saudade do seu cheiro, do seu beijo, da sua risada gostosa ao ouvir minhas piadas sem graça. Tudo isso ainda está aqui.

Para muitos, a memória é um dom, mas para mim é um martírio, uma desgraça. Como me esqueceu tão rápido? O que tenho de fazer para me libertar da sua teia e buscar um novo amor? Ou amor de verdade era apenas o seu?

Voltei ao parque ontem. Sinto lhe dizer, mas outro casal ocupou nossa árvore. Faz tanto tempo, que nossos nomes já foram apagados do tronco. Até aquela velha macieira conseguiu se recuperar dos cortes que fizemos nela em nome do amor (amor?) e eu não consigo me reergue. Acho que fui acorrentado ao seu calcanhar. O que antes era fonte de alegria, de festa e de muitos sorrisos, hoje só traz lágrimas, dor e uma doce ilusão.

A noite é o pior de tudo pra mim. Já não durmo há meses e sempre tenho a sensação de que seu corpo está encaixado no meu. Lembra que você repousava a cabeça no meu peito e me pedia um cafuné até pegar no sono? Pois, é, menina, eu só conseguia dormir depois de ter certeza que você já havia adormecido. Hoje, nem sei em qual cama você dorme, mas tento imaginar que está bem.

Meus companheiros são o café, o cigarro e um bom livro de Dostoievski. E o Russo é testemunha de como meu coração tem ardido nas madrugadas sem você. E nem mesmo a leitura consegue me distrair, pois a gente lia juntos: você abraçada em mim na cama e eu fazendo entonação de locutor para ler aqueles contos que tu adorava.

Quanto mais eu busco me completar em outros braços e abraços, mais vazio eu fico. Meu coração hoje é uma peneira. Você me fuzilou sem dó nem piedade e ainda me abandou para morrer sangrando devagarinho, devagarinho. Espero que seu novo rapaz seja melhor do que eu fui. Apesar de sofrer com a dor de sua partida, meu amor é maior e não consigo lhe desejar outra coisa se não a felicidade, e o sucesso.

Como bem sabe, hoje é (ou era) nosso aniversário. Comprei flores, enfeitei a casa e coloquei o celular no centro da mesa de jantar e estou esperando uma ligação sua. Já é tarde, mas pode ser que você tenha se atrasado de novo no trabalho, que tenha acontecido alguma coisa… Afinal de contas, eu estou querendo enganar a quem? Sei muito bem onde você está agora e porque não vai chegar.  Mas não custa sonhar só um pouquinho e imaginar que vai chegar com trazendo nosso café amargo, dizendo que adorou as flores que comprei pra você. Sou um homem movido por memórias. Elas são tudo que tenho de você.

Como não quero incomodar, vou me despedindo, com lágrimas nos olhos, pois sei que essa será mais uma carta engavetada e que nunca chegará a suas mãos. Por mais que eu sofra, que eu te queira de volta e que sonhe um mundo onde nós somos o centro, a vida continua. Já separei, não se preocupe, um ótimo sorriso para amanhã. Essa carta, quem sabe um dia eu a queime com o fogo de uma nova paixão.

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Participe da conversa! 2 comentários

  1. Lindo!!! ❤

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  2. Aquele momento que você se identifica totalmente com o texto e morre de chorar

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Flávio Sousa

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