O sentido da vida ou a falta dele

Temo que nossos dias, no final das contas, não tenham valido nada. Imaginar que no fim de tudo não seremos condenados ou absolvidos é aterrorizante. Se não existir Deus nenhum, nossas vidas são apenas um acidente da matéria e, como tal, podem ser dissolvidas em uma simples combustão de átomos. Mas e a consciência? Essa seria, talvez, uma tentativa de lidar com ideia de que somos nada e nada seremos após a morte.   

O homem de hoje é o mesmo primata de milhões de anos atrás ― engana-se aquele que pensa o contrário. Continuamos com medo e, parafraseando o filósofo Luiz Felipe Pondé, carregando o cadáver nas costas o tempo inteiro, ou seja, a consciência da finitude. A diferença é que agora temos mais métodos de distração e sobreviver não é uma tarefa árdua como foi há milênios.   

Costumo ver a falta de sentido da vida nos enormes engarrafamentos dos feriados prolongados. São centenas de milhares enfrentando horas de calor e trânsito parado em busca do quê? Um metro e meio de área de praia e gente mal-educada? Para eles, a vida não parece ter outro sentido se não esse. Não quero dizer que não devemos viajar ou conhecer novos lugares e pessoas ― faço apenas um exercício filosófico (ou algo parecido com isso) para tentar entender nossa existência que parece repetitiva e enfadonha.   

Há esperança

Embora o mundo seja uma eterna tentativa de lidarmos com a desgraça, ainda há esperança. Basta olhar a nossa volta para percebermos os pequenos traços de perfeição e amor quer nos cercam e dão a certeza de que algo está em curso neste universo e que somos parte disso. Cito um exemplo, piegas, mas que cairá bem nesse contexto.

Trabalho em uma sala que dá vista para uma Avenida lindíssima, chamada Getúlio Vargas. O local é um misto de nostalgia dos anos trinta com um toque moderno e barulhento do vai-e-vem dos carros e pessoas. Até aquele dia, que marcaria pra sempre minha vida, pouco tinha reparado no que se passava lá embaixo. Era início de tarde e, como de costume, me debrucei sobre o enorme janelão do escritório e comecei a observar o que se passava.

No entanto, algo me prendeu a atenção: a conversa de um casal. Um rapaz de pele morena, baixo para os padrões masculinos, magro e com sujo do trabalho, provavelmente trabalhava com mecânica de automóveis. A moça, pele clara, cabelos loiros, boa estatura e olhos verdes tal qual esmeraldas, segurava as mãos do mancebo enquanto ele falava. Falou por uns dez mitos (catastrófico, pensei que se tratava de uma briga, mas estava redondamente enganado).

Continuei a observar. De repente, o moço se abaixou e, com uma das mãos, retirou um buquê de flores vermelhas e pequenas – acho que foram retiradas de uma das árvores da Avenida. Emocionada, a jovem levou as mãos a cabeça, na boca e caiu no mais gostoso dos choros que se pode imaginar! Era choro de verdade, de paixão, de amor (pelo menos naquele momento era). Selaram o compromisso com um beijo tímido e um abraço longo.

Eu e alguns colegas de trabalho não resistimos: aplaudimos os dois. Eles olharam em direção a minha janela e sorriam. O rapaz foi embora primeiro, deixou a garota lá. Em seguida, ela pegou telefone e ligou para alguém e, pelo que pude ler dos lábios dela a distância disse: “Mãe, tô namorando”. Depois sumiu por entre os carros e pessoas…

São momentos como esses que me fazem quebras as barreias do ceticismo e crer, mesmo que por dez minutos, que podemos da sentido para nossas vidas sem sentidos. Talvez o homem seja mesmo uma experiência que não deu certo, mas não há como saber a resposta agora, pois não conhecemos o final da história do homem. Gosto de pensar a existência como Nietzsche: já que estamos caindo em um abismo infinito, por que não cair dançando? A vantagem é que não pensamos na “vida” o tempo inteiro ― graças a Deus. Quem sabe pode ser pedagógico imaginar que nada disso faz sentido. Até que cada um de nós morra e descubra a resposta o melhor é ir caindo (e dançando) nesse abismo de surpresas e emoções doces que é vida. 

  

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2 comentários em “O sentido da vida ou a falta dele

  1. Bela estreia, Flávio Sousa, com estilo e questionamentos incômodos!!! Muito sucesso, firmeza e verve para enfrentar essa nova etapa e arcar com as implicações desse novo desafio. Quem sabe não seria essas nossas vidas, não seriam apenas um teste, uma programação cósmica em desenvolvimento? Ctrl C + Ctrl V + Del + Recup. + End. Nada podemos dizer “ainda” sobre isso. Mas a certeza de que há um grande erro na composição não dúvidas: O SER HUMANO. Abraço forte.

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  2. Flávio, gostei muito, sobretudo de sua poética quase niilista (gosto disso), e recuperada no final, quase que totalmente (gosto disso também…)
    A fotomontagem ficou excelente
    Estreou em grande estilo.
    Um forte abraço

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