Pela quinta noite consecutiva você se senta neste mesmo balcão e pede um Scott. As doses se acumulam assim como as bitucas de cigarro. A brasa queima o dedo, o lábio e o peito. Você foi capaz de beber, em um único gole, toda a tenebrosa escuridão. Encher a cara dentro de casa não foi alento. Todos os cômodos, móveis, cantos, tudo te lembrava ela. A solução foi fugir, todas as noites, para embriagar-se pelos botecos da região.

Ela te trocou por outro e essa afirmação dilacera suas entranhas. Ainda é possível ouvir o bater da porta e o silencio gritante que ela deixou para trás. Dói, eu sei. Nada faz a ferida arder menos e isso é mesmo uma grande ironia do destino. Como pode, agora você, sentir tamanha dor? Como pode queimar a pele de maneira tão cruel quando, na verdade, era você quem feria?

Sombrio e desolado você já não vê luz no fim do túnel e pensa que chegou ao fim da linha. Jamais imaginou que ela faria as malas e partiria para os braços de outro alguém. Aquela casa está vazia demais sem ela e você, desorientado, não consegue seguir em frente. Eu entendo. Perder um amor assim: deixa a gente estarrecido. Os dias se tornam noite e a lua, maldita, ilumina quando você não quer, nunca mais, encarar a realidade. As ruas não te levam a lugar nenhum e a chave já não abre mais a mesma porta. São calabouços que abrigam frio e vazio. Dói, queima, arde.

Ela era sua. Cuidava da sua casa, das suas roupas e das suas noites. Massageava seus pés e seu ego. Te fazia um cafuné e, ao acordar, preparava um café quente. Aceitava seus porres, suas mentiras e até os desaparecimentos repentinos. Sempre acabava te recebendo de braços abertos. Era amor, não era? Ou era medo?

Hoje ela sorri nos braços de outro e não pensa em você. É justamente isso que te deixa possesso. Ela teve coragem, meu amigo. Ela resgatou as forças do fundo do poço, onde você a arremessou, e voou para longe. Para um abraço que a abrigasse. Ela não permitiu que seu punho tocasse seu rosto novamente. Ela cansou de apanhar e encerrou a sessão de golpes e pontapés. Cansou de remediar as feridas e fazer novos curativos a cada rompante seu. Ela desistiu de implorar para que você parasse. Todo sangue derramado foi em vão. Ela não permite mais abusos. Toda a violência que você despejou nesta mulher a transformou em fortaleza. Nos braços do amor ela superou a dor de toda a tortura. A brutalidade, então se findou. Ela assinou a própria carta de alforria e, hoje, é você o escravo a dor.

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Participe da conversa! 1 comentário

  1. Que chocante

    Obdo Monika
    Você sabe contar histórias
    Parabéns

    Curtido por 1 pessoa

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Monika Jordão

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