Eu não escuto os mais velhos

Eu demorei dezoito anos pra chegar nos meus dezoito anos e perceber uma barbaridade de coisas que nunca fizeram muito sentido pra mim. E eu não amadureci com isso. Pelo menos não com a virada da idade. Eu só senti a ficha caindo. Só ouvi o estalo do metal batendo no solo me fazendo perceber o quanto as coisas que eu pensava antes faziam sentido. Porque foda-se se eu tenho dezoito, vinte e cinco ou setenta e nove anos, eu tenho que acreditar nas coisas que eu percebo, nas coisas que eu sinto, nas coisas que eu vivi até aqui.

Não, eu não dou ouvidos aos mais velhos. Pelo menos não sempre. Arrogância? Não. Visão de mundo, meu caro. O que uma pessoa de dezoito anos tem a dizer sobre os seus dezoito anos e o que uma pessoa de cinquenta e cinco tem a dizer sobre os seus dezoito anos? Um monte de coisas diferentes, né não? Porque o mundo mudou pra cacete, a nossa forma de conviver com o mundo é completamente diferente da geração anterior. Meu pai viu o mundo de um jeito, eu vejo de outro. Isso faz da minha geração melhor ou pior do que a dele? Não.

“Ah, mas antigamente era bem melhor, não tinha essa coisa toda da tecnologia, a gente vivia de verdade”. Fala isso pra um casal que namora a distância e usa da tecnologia pra se ver perto, ou pra alguém que ganha a vida despejando umas palavras nos teclados por aí. Se isso aproxima o mundo, cara, deixa aproximar. Se isso torna a gente mais vulnerável, deixa tornar. A gente tem que aprender a lidar com as ferramentas que tem. A gente tem que arrumar um jeito de a coisa toda fazer bem pra gente, caso contrário vamos precisar ouvir pra sempre o discurso de que a que a nossa geração vive numa zona de conforto, de que tem tudo em mãos e não tem nada.

Calma, queimei um neurônio aqui. E olha que eu só tava tentando explicar que idade não faz da gente maior, melhor ou mais inteligente que os outros. Ou que maneiras diferentes de encarar o mundo fazem gerações certas ou erradas. Talvez a coisa toda não faça muito sentido pra você, afinal, nossas visões de mundo são diferentes, cara. E ainda assim não sigo o conselho dos mais velhos. E falo com estranhos, pasmem – eu converso com estranhos. Isso já não é mais errado desde que eu tinha meus doze anos e aprendi a analisar as pessoas. Meus pais foram estranhos um para o outro um dia, todo mundo é. Porque a vida é feita de encontros, meu caro, e esse aqui é um teu com as coisas que eu penso.

Talvez essas coisas todas não fazem muito sentido pra você, mas tem nexo pra caramba dentro da minha cabeça. E lá se vai mais um dia em que eu acho que passei a entender um pouco mais do mundo. Bobagem, cara. Mas ainda assim nem sempre dou ouvidos aos mais velhos. Dou pro meu coração, bem mais surrado e judiado do que eles. Porque ele tá assim pelas coisas que ele viu e sentiu, não pelo tempo. Porque tempo é nada, olha só: eu demorei dezoito anos pra chegar nos meus dezoitos anos e quando isso finalmente aconteceu, um tempo atrás, minha vida mudou em nada. Só caiu a ficha de que a gente precisa acreditar mais na gente e seguir o nosso coração. Não o que pensam os outros.

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