Dor nenhuma serve para justificar amor

A gente tem uma mania subconsciente um pouco paradigmática de que, se a gente não sofre com a despedida, com a partida, não foi amor. Como se a dor, o peito ardendo em brasa fosse só a confirmação daquilo o que a gente diz ter sentido pelo outro. Mas por quê? Às vezes a pessoa foi incrível, passou pela nossa vida colorindo pouco a pouco as coisas com uma aquarela nova, e a gente facilmente ficaria por elas, mas não ficou. Ou elas não ficaram. Foi a descoberta de um mundo novo, e não é a partida, ou a necessidade do rancor, que vai deixar isso no passado; que vai passar a borracha em uma história magnífica que só fez bem pra gente.

A gente sempre acha mais sensato transformar o outro em algoz, em fantasma ou tormento, pra sofrer por algum motivo com a despedida e encontrar uma maneira de justificar a história toda. Como se a cicatriz fosse mais valiosa que a lembrança em si. O problema é que a gente não percebe que os maiores fantasmas das nossas vidas, os que mais atormentam, os que mais perturbam na hora de dormir, são aqueles que a gente cria, aqueles que a gente molda em volta das pessoas que foram, pra ver se a angústia justifica a partida. É que é complicado aceitar que a gente deu certo, mas não ficou junto. É complicado aceitar e entender que às vezes a gente gostou de verdade da pessoa, mas não encontrou motivo nenhum pra sofrer por ela.

Claro que existem angústias inevitáveis. Na maioria das vezes a gente vai sofrer com a despedida, vai sentir o nó trancando a garganta. As pessoas ferem a gente, e não temos como escapar disso. Mas, geralmente é a gente quem decide como vai lidar com pessoa depois da despedida. Então a gente vai vivendo nessa autossabotagem, nessa coisa de tentar encontrar repulsa em algum lugar, de vasculhar nas caixas do sótão a procura de algum motivo que justifique o martírio. Às vezes essa procura, essa angústia por não sentir nada, dói mais que a despedida em si. Essa coisa de se apegar mais ao fim do que ao início e ao meio da história toda, porque talvez ela não devesse ter acabado, faz a gente sofrer mais do que a ausência da pessoa em si.

Às vezes a gente precisa aceitar que a gente sente falta da pessoa, sente a ausência na hora de dormir quando o celular fica mudo esperando um boa noite que não vem, e que ainda assim não dói. Porque no fim das contas, a gente é quem decide em que canto do nosso passado vamos encaixar a pessoa depois da despedida; é a gente quem transforma a pessoa em fantasma ou em lembrança boa. E a dor, bom, a dor não serve pra justificar nada, não serve pra provar que a gente amou de verdade alguém.

A história toda foi incrível, a pessoa apresentou pra gente um mundo novo em uma aquarela com mais cor, mas a gente não ficou. Ou a pessoa não ficou. E essa história e essa descoberta, mesmo que depois do fim, talvez seja só mais um motivo pra gente se pegar agradecendo por ter esbarrado com alguém que vai ser levado pra sempre como lembrança boa, e não como fantasma. Porque geralmente, apesar de não parecer, a escolha é nossa.

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2 comentários em “Dor nenhuma serve para justificar amor

  1. Preciso dizer que tenho uma paixão enorme por uma boa escrita. Recentemente descobri essa paixão em você, Julio. Fiquei apaixonada por que acompanho teus textos lá no ” Entre todas as coisas” e vim parar aqui. É simplesmente arrebatadora a forma como você toca todos os órgãos, fazendo com que o funcionar deles sincronizem com tuas palavras. Você é aquele tipo de cara que descreve sua alma, a nossa e ganha muito fácil os corações de todos que lêem. Muito obrigada!

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