Antes de você ir embora

Talvez seja mais sensato escrever isso tudo agora, enquanto você ainda tá com um pé aqui – por mais que o outro já esteja em outro sonho -, do que quando você partir e restar só essa saudade bacana de quando a gente nega a parte feia e lembra da pessoa só com aquilo o que faz bem. Talvez seja melhor escrever isso tudo agora, porque talvez você encontre entre uma vírgula e outra um motivo pra ficar; talvez você encontre, em algum lugar escondido entre Mercúrio e Plutão, alguma justificativa pra manter os dois pés aqui, e ainda assim estar bem firme caminhando num sonho.

Te escrevo isso porque acho que você merece saber que a única lembrança que eu pretendo guardar de você é da parte em que eu te amei. Vai arder um pouco nos primeiros meses e eu vou negar a sua existência na frente do espelho todas as manhãs durante um tempo, até que vai chegar o dia em que eu vou acordar e você vai ter passado. A verdade é que a gente escolhe como vai se lembrar da pessoa depois da despedida. Rancor? Nah, seria negar toda a nossa parte bonita –  por que em meio a toda a parte torta a gente teve uma afeição bacana, não teve? Seria negar os sorrisos e os abraços dados no sofá com os pés pra fora da borda e a gente pra fora do mundo, como se vivêssemos em um universo paralelo que fosse só nosso.

Mas apesar desse discurso bacana de quem aceita a despedida como se fosse uma coisa natural, como se premeditasse a coisa toda, eu escrevo isso pra ver se você encontra um motivo pra ficar. Talvez você encontre ao se lembrar do encaixe do nosso abraço, do encaixe dos nossos dedos enquanto a gente levava a vida em passos meios tortos por cismar em não desatar a gente. Ao se lembrar do som da minha respiração ofegante enquanto beijava o teu pescoço. Da maneira com que eu te olhava no meio da multidão toda; a maneira com que eu te devorava com os olhos, negando a existência das pessoas todas em volta, enquanto você me contava sobre os detalhes de nós dois no meio daquele café movimentado. Ou talvez você encontre quando perceber que quando a gente se conheceu a gente era jovem demais e carregava aquela mania estranha de coração adolescente, que nega tudo o que sente, e que agora a gente cresceu.

É que eu ainda acredito que a gente pode dar certo de alguma maneira na vida um do outro, independentemente da distância que nos separa – e não importa se são cinquenta quilômetros ou o sistema solar inteiro. E por isso, eu pararia por você. Pararia e te mostraria que esse meio jeito meio bobo meio tolo de avisar quando chegou em casa, de não ter vergonha de dizer que se preocupa e de não ligar pro orgulho, é o jeito certo. Pararia e te mostraria que não importa se você mora na esquina da minha casa ou se eu preciso atravessar o mundo inteiro pra te encontrar – mesmo que você já esboce um adeus.

Tô te escrevendo isso pra ver se você encontra – em algum lugar entre Mercúrio e Plutão – um motivo que te faça ficar. E tudo bem se você decidir partir, às vezes a gente precisa aceitar que a gente rabiscou um final feliz e o outro não. Vai ser penoso por um tempo. Vou sentir o peito queimando em brasa e a cicatriz em carne viva; o coração apanhando e se esquecendo de bater. Vou negar a sua existência todas as manhãs até o dia em que você vai passar. E quando isso acontecer, ainda assim vou contar pro mundo inteiro o quanto você foi incrível; vou contar sobre as coisas todas que você fez pra me encontrar. E vou rezar pra você ser tão incrível pra ele, como foi pra mim.

Mas enquanto ainda é tempo e você não foi, fica. Fica e me prova que essa sensação meio boba de que a gente ainda pode dar certo na vida um do outro não é só mais uma daquelas manias adolescentes que a gente carrega pra vida toda.

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Um comentário em “Antes de você ir embora

  1. Tatuei no meu ombro, lá perto de onde se esconde a clavícula (que todo mundo aparentemente parece quebrar), “Que Seja Doce”, a resposta fácil para quando perguntam porque eu tatuei isso, é que isso é uma parte do que Caio (meu escritor preferido) pregava. A parte difícil, é a de precisar tatuar algo em mim e olhar para ela todas os dias só pra lembrar que independente das escolhas das outras pessoas, tem que ser doce. O desenlace, a partida, o choro perto da fila de embarque. Até o fim mesmo, até quando não tem mais jeito por N motivos.
    Carrego o mantra “Vai passar, eu sei que vai passar” e então aliso a letra “Q” onde se firmou uma pequena queloide (só decifrável para tatuadores) para me lembrar de tudo o que foi bom ali, de tudo o que deu certo. Como você tenta fazer. No fundo, guardar algum tipo de rancor ou mágoa só fere a nós mesmos.

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