Se eu te ligasse

Se eu te ligasse agora e te dissesse sobre as coisas que eu sinto por você, você riria de um jeito bobo pra caramba que eu daria tudo pra atravessar o telefone e atravessar o mundo pra te ver. Mas não adianta, talvez você não atenda. Ou atenda e não entenda, não sei. Por isso eu encaro o teto sem abrir a janela, sem ligar a luz e sem me desligar de você, porque a claridade me cegaria de uma vez por todas e mataria as coisas todas que eu sinto por você.

Morri noite passada. Com três tiros no peito quando você postou uma foto no meio daquele bando de gente, em um lugar abarrotado de pessoas perdidas e de gente que não se entende. Era você quem estava lá mas era a mim que a música ensurdecia e as luzes cegavam. Não sei quando é que você pegou gosto por lugares assim e não me disse. O engraçado é que essa não foi a primeira vez que eu morri por você. Eu morri um pouco quando você saiu por essa porta naquele domingo com um discurso concreto do quanto estar aqui te fazia bem. Só que daquela vez eu morri de um jeito bom, de uma maneira que a única parte dentro de mim que perdeu vida era aquela que me corrompia. E dessa vez as balas mataram um pouco de tudo aqui dentro, meu bem, só não mataram você.

Se você soubesse um pouco do maremoto que você é dentro de mim, talvez você entendesse o quanto o meu mundo ficou revirado quando você apareceu por aqui. E é por isso que eu desconto a angústia na bebida. A gente sempre volta pro vício mais recente quando precisa de fuga. Mas eu não preciso de fuga, eu preciso de você, duplicada na minha frente pra descobrir se pelo menos uma das duas versões decide ficar aqui de uma vez por todas. E enquanto eu olho o mundo de um jeito torto, as pessoas não entendem a adrenalina e a necessidade que eu tenho de ter você aqui. E por isso não me importa se você mora aqui ou eu precise atravessar o oceano pra te ver; não me importa se o teu passado é complicado e deixou feridas expostas, porque o meu também é. Não importa se você vai me dispensar depois do próximo encontro, só me importa que.

Olha bem pra mim. Entende o imediatismo nos meus olhos. Percebe que não tem a tua mão na minha, nem o teu abraço no meu, mas tem esperança. Tem as nossas fotos, as nossas ligações, os recortes de lembranças de nós dois que eu guardo em um porta-retrato nobre em um pedaço mais nobre ainda do meu coração. Do lado daquela frase de Bon Jovi que eu tatuei no peito pra te contar que existem coisas nessa vida que eu só sinto por você.

Se eu te ligasse agora e te dissesse sobre as coisas que eu sinto por você, você riria de um jeito bobo pra caramba, tenho certeza, mas ainda assim não saberia como reagir quando eu te contasse que morri com três tiros no peito noite passada. Tudo bem, vai chegar um dia em que você vai me matar de vez. Por completo ou só a parte que me corrompe. Ficando aqui pra sempre ou indo embora de uma vez por todas. O problema que é tudo aqui dentro pergunta por você. As pessoas, os retratos, as paredes, o sofá. Mas tudo bem, amanhã ou depois você volta. E não importa se você vai me dispensar depois do próximo encontro, só me importa que se isso tudo já não for mais por amor, que seja por você.

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3 comentários em “Se eu te ligasse

  1. Só quero dizer que chorei de soluçar lendo esse texto. E que é isso que causa a poesia quando é pura, gera identificação. É tão particular, que se torna universal! Parabéns Julio!

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