Como foi teu dia?

(Você pode ouvir ao som de Clausura)


Não foi que nem naquele encontro marcado na praça em que eu quase liguei pra você dizendo que peguei no sono e iria me atrasar. Foi um encontro desses que a gente não marca, que aparecem no nosso caminho e faz a cabeça girar em sentido anti-horário tentando encontrar um sentido pra justificar que talvez seja destino. Destino, sério mesmo? Foi mais eu indo e você voltando. Um oi, tudo bem, vou bem, te cuida. Até mais, meu bem.

Foi na esquina daquela rua movimentada com outra qualquer que eu parei e esperei que você me contasse como tem sido teus dias. É que eu acho linda a maneira com que você leva a vida, o jeito com que a retina dos teus olhos sorri enquanto você fala sobre a família, o como você encara o teu sonho sem olhar pra dificuldades no meio do caminho. Saí dali com uma vontade tão grande de chorar, de desabar, de desmoronar por inteiro, que você não acreditaria se me visse disfarçando enquanto cumprimentava as pessoas na rua tentando demonstrar qualquer gesto de respeito. Eu até tentei explicar pra segunda ou terceira senhora – não lembro bem – que existem coisas na vida que eu só você me causa. Mas foi em vão. Nunca é fácil explicar pros outros sobre as coisas que se passam dentro da gente, e nem foi menos complicado naquele dia em que eu contei pra você.

Tive que abaixar a cabeça com os olhos e o coração pesados por passar por você e me lembrar do que nos trouxe até aqui. É meio que uma lembrança estranha daquela manhã de novembro em que eu te fotografei, que me devora e me acaricia, me encaixa em um paradoxo que eu até tento explicar, mas ainda não aprendi a entender. Pensei em correr de mim e bater na porta da tua casa pra encontrar abrigo. Mas não tinha você. E nem adiantaria gritar o teu nome sílaba por sílaba, porque você não iria ouvir. Eu só queria ir correndo até você pra me alojar outra vez no teu peito. Pra fugir dessa coisa que me preenche e me devora. É que por dentro, meu bem, eu sou pura angústia.

Deito a cabeça no travesseiro e penso que tenho uma festa pra ir e você não está aqui. Qual a graça de ir pra um lugar movimentado se não tem a tua mão pra me guiar no meio da multidão? Sem ter você pra me segurar pela mão e dizer que vai ficar tudo bem? Da última vez as tuas amigas riram baixinho quando eu beijei a tua testa e disse que sentiria tua falta na manhã seguinte. Por uns dias ou pela vida toda, meu bem? Porque ela tá me consumindo, me devorando por dentro, me jogando em um buraco negro que me lembra todas as noites o quanto eu sinto falta de você.

Te conto tudo isso porque cheguei em casa e me bateu uma saudade gigante de você. Tentei explicar praquela senhora o quanto eu te queria bem pra caramba, o quanto eu me sentia feliz por ter você por perto. Mesmo com os traços tortos da tua personalidade. Mesmo com o jeito bobo de olhar pro chão– de uma maneira que me encanta – quando sente medo. Mesmo com essa certeza absoluta de que é melhor abrir mão das tentativas pra não se ferir. Tentei, mas não consegui.

Te encontrei e não foi com hora marcada. Foi mais um esbarrão com oi, tudo bem, vou bem, te cuida.
Mas e aí, meu bem, como foi teu dia?

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