Ela é da boemia

“Se arruma e sai. Ande pela cidade. A noite é longa.”, era o conselho de um velho amigo. Ah, a boemia. Quem não se rende? E ela foi. 

Saiu por aquelas ruas que já conhecia, mas que ainda assim, eram surpreendentes. As luzes incandescentes davam um charme único e revelavam detalhes que o dia mascarava. A noite é sedutora, cheia de encantos que prendem sua atenção.

O local era novo, mas naquela velha casa amarela. Entrou no bar sozinha e disposta a fazer da cerveja a melhor companhia da noite. Sentou-se ao fundo, onde conseguia observar todo o ambiente. Era isso que a instigava: observar.

O cara de barba e camisa xadrez. A mulher de jeans e blusa decotada. O garçom simpático e com aquela tatuagem no pescoço. Aquele casal que parecia turista e sorria ao ver os registros feitos na câmera fotográfica. O que cada um ali naquele bar guardava? Qual a real história daquelas pessoas?

Sua vontade era convidar cada um deles para uma cerveja e uma conversa descontraída. Ela gostava de gente, sem nenhuma restrição. De histórias, estórias e memórias. De sonhos, desejos e fetiches. De sorrisos, confissões e intimidades. Ela gostava de entrar naquelas vidas, de se perder por entre lembranças e falas intermináveis.

Ficou ali por horas, entre anotações no Moleskine vermelho e mais um copo. No entra e sai das mais variadas figuras e outro copo. Embalada pelo samba que tocava na vitrola estilizada e “outra cerveja, por favor!”. Retocou o batom e percebeu que além de observar, alguém ali também estava vendo suas ações. O cara sentado no balcão. “Esse rosto não me é estranho”, pensou. E não era.

Nas últimas vezes em que ela saiu em sua própria companhia, lá estava ele. Também observando. Ele virou um shot de tequila e se dirigiu até ela. “Imagino que tenha bastante inspiração nesse lugar… Aceita uma cerveja e um bom papo?”, foi direto, e com um sorriso convidativo.
E ela, que já ria com facilidade depois de alguns copos, não recusou a proposta. “Desde que venha com uma história que me faça ficar, aceito o convite!”. Ela era dessas.

Olho no olho e uma conversa que parecia entre amigos de infância. Esse negócio que costumam chamar de coincidências da vida, ela prefere chamar de sintonia. E ali não faltou. Hipnotizada, ela e a cerveja ganharam outra companhia.

Duas vidas em duas horas de conversa. Fecharam a conta. Fecharam o bar. Mas seguiram dali, por entre os becos históricos, muitas gargalhadas e cantando a última música que tocou na vitrola: “O sol, há de brilhar mais uma vez! A luz, há de chegar aos corações”.

 O dia se aproximava, mas a noite ainda foi longa. E ela, que gostava de gente e suas histórias, foi viver mais uma ao lado da companhia surpreendente da noite. Coisas que, definitivamente, o dia não traz. Entende o encanto? A noite é livre e boêmia. Ela aprendeu a ser também. E ele poderia ser o novo personagem da sua vida.

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