Por que a fuga?

(Você pode ouvir ao som de Always)

Desligo a luz, te desejo boa noite – mesmo que em pensamento –  e desabo sobre o travesseiro. Vou dormir com aquele sentimento de que deveria deixar pra lá, parar com isso, esquecer um pouco o martírio ou evitar que tudo imploda dentro de mim mais uma vez. Talvez se eu deixasse pra lá a ferida ardesse menos, entende? Bobagem, porque não tem fuga quando a coisa da qual a gente tenta fugir mora dentro da gente. Acho que é por isso que eu não consigo nem quero te esquecer.

Te desejo bom dia e logo depois passo por você. Talvez você não tenha percebido que eu sempre te desejo em todas as coisas que eu faço. Você abana e sorri e o mundo fica mais bonito nos quinze minutos seguintes, até que passa o efeito de êxtase com morfina que o teu sorriso me traz. É incrível essa tua forma de me ter mesmo sem fazer esforço, mesmo sem fazer nada, sem mover um pé, enquanto eu moveria montanhas pra quebrar essa barreira de nós dois. Já passou pela tua cabeça que é burrice fugir daquilo o que te faz bem?

Se você deixasse de lado esse jeito comedido de viver a vida, esse medo que você tem de se arriscar e se ferir de novo, talvez a gente pudesse ser feliz. É que eu também já me feri bastante, meu bem, já sofri pra caramba e por um monte de gente menos importante que você. Mas o amor é isso, não é? A gente encarar as feridas, encarar qualquer possibilidade de sofrer e encontrar no outro alguma coisa que justifique a entrega, que justifique todos os fracassos anteriores e faz imaginar que talvez a gente não tenha dado certo com ninguém antes, porque o nosso abrigo é aqui.  Eu entendo o teu medo, o teu receio, mas não entendo a fuga, a reclusão. Se trancar daquilo o que faz bem é auto-sabotagem, meu bem.

Talvez dia desses você perca essa mania boba de se trancar do mundo por medo de sofrer. Talvez perceba que entre o oito e o oitenta existem setenta e duas possibilidades de ser feliz. Talvez perceba que essa fuga necessária nem é tão necessária assim, e que eu tô aqui, sou diferente de todos os caras que passaram pela tua vida. Como eu sei disso? Eu não teria passado, teria ficado por você. Ficaria agora se você deixasse, ficaria até o café ficar pronto e ficaria pra sempre. Ficaria até você não me aguentar mais e ai sim eu entenderia a fuga; até arranharia um trecho de Bon Jovi pra te fazer rir e te contar que é pra sempre, até as estrelas não brilharem, os céus explodirem e as palavras não rimarem.

Eu sei que eu preciso aprender a caminhar sozinho, mas se não tiver você, vou caminhar pra onde, entende? Dia desses  você me olha de canto e percebe que se trancar do mundo e fugir de mim  talvez não seja o melhor pra você. Sabe por que, meu bem? Porque como eu te disse, eu sou diferente dos outros caras que passaram pela tua vida. Eu não teria ficado por você. Eu fiquei.

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2 comentários em “Por que a fuga?

  1. Sempre acho que teus textos cabem de alguma forma na minha vida. E como já diria o Bovolento no texto ‘Pode parar de fugir de mim’, realmente “Nunca tem fuga quando a coisa da qual a gente foge mora dentro da gente”, um dos meus textos preferidos por sinal. Mesmo que algumas vezes encontre algo semelhantes aos textos do Bovolento nos teus textos, eu acho eles totalmente criativos e inovadores. Você é daquelas pessoas que escreve e só desperta coisas boas na gente. Você é incrível Júlio.

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