Estalo

É estranho quando dá o estalo, quando a gente percebe que tem um pouco do outro no livro na cabeceira e nos detalhes enrustidos em cada parte e em cada canto da mobilha, quando os quadros na parede e o desenho do horizonte ganham um significado que não tinham. É estranho porque quando a gente percebe a coisa toda guina, troca de rumo, segue na contra-mão e a gente se dá conta de que tudo o que tá aqui tem um pouco do outro e um pouco da gente, só faltava a gente perceber. E o estranho é bom.

            A gente já se esbarrou e se perdeu tanto, meu bem. Passei tanto por você na rua e pensei tanto em alguém enquanto passava por você que é estranho perceber que esse tempo todo foi prefácio pra esse estalo. E eu passei por tanta coisa enquanto passava por você e percebia nada. Pra mim você sempre foi um alguém por quem eu passei e sorri enquanto a vida virava o rosto pra mim; um alguém por quem eu passei e enxerguei nada uma vida toda; por quem eu passava e não tinha medo nenhum em estampar na minha cara fechada os demônios que eu carregava e insistia varrer pra debaixo do tapete, já que eu não tinha que agradar você, porque você sempre foi um alguém por quem eu passava e suplicava ajuda com olhos, berrava para que me puxasse da realidade e me liberta-se dos demônios todos, mesmo sem sentir nada.

            Talvez as pessoas todas tivessem razão em dizer que eu dava certo com ninguém porque já tinha me encontrado em outro lugar; que eu ladrava em vão porque tudo o que eu precisava passava e esbarrava por mim e eu só precisava levantar a vista e a cabeça pra perceber – é que a gente sempre anda de cabeça baixa pra não ter que encarar o mundo e as pessoas todas quando as coisas não dão certo. Era segunda quando eu te fotografei. Dali então era terça e eu já dormia e acordava com você todos os dias, com os meus pensamentos todos vidrados e com os olhos brilhando que não suplicavam ajuda, mas refletiam um soldado ferido pela guerra sem reação em meio ao milagre. Era quarta e eu me vi livre do martírio, livre das amarras e das correntes que me prendiam aos meus demônios. Era quinta e eu esbarrei com você e te fotografei de novo, pra te registrar e ter um pouco mais de você em mim.

            Noite passada contei pro meu travesseiro sobre essas coisas todas e em como eu demorei pra perceber que eu me perdia tanto até esbarrar o meu olhar com o teu e me perder. Fiquei pensando se era verdade ou era só mais uma coisa bonita dessas que a gente usa pra formar poesia, mas é sim. Se perde em mim ao contrário e se encontra. Me puxa do martírio, me tira pela tangente da realidade e me leva pra outro lugar onde eu perceba que isso tudo – esse estalo e essa coisa que eu sinto – é real, que isso aqui não é mais uma guerra e que eu não preciso mais lutar contra os meus demônios.

            É estranho quando dá o estalo. Mas o estranho é bom. Era sexta e eu vaguei a madrugada procurando por você. Sábado sentei em meio a multidão e o turbilhão pra ver se te encontrava e registrava enquanto te via passar. Foi no domingo que eu te procurei pra te dizer essas coisas todas e pra te dizer o quanto eu sou feliz por me ver livre das amarras. Dali então já era segunda de novo e eu me apaixonei.

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