Naufrágio

É estranho ter que encarar o teto e dar de cara com um reflexo nosso, que preenche os olhos e machuca fundo, quando a gente deita a cabeça no travesseiro pra recordar e se punir. É estranho porque arde e o corte parece fundo, por mais que a pele esteja igual, sem marcas e sem rasgo, porque o rombo e a cratera são no coração. E se punir no fim das contas é nada; é nada porque o que fere de verdade, o que faz a pele arrepiar e os músculos todos contraírem é ter que se encarar no teto e no espelho; é ter que encarar um pedaço do outro em tudo o que ficou e permanece nas prateleiras do quarto.

            A gente nunca sabe lidar com um término porque nós nunca sabemos o que vamos sentir. Na maioria das vezes a gente acorda com essa sensação estranha e que preenche, que embrenha e cria raiz no peito, encarando a gente logo na manhã seguinte. Tem vezes que a gente sente nada e o vazio e o silêncio que ficam até nos parecem bom, agrada a vista e o ouvido, mas até quando? A gente pode até passar por um período de enganação, de encarar o espelho e encontrar um sorriso amarelo que nos basta, até que chega uma hora em que deitar a cabeça no travesseiro e encarar o teto se torna inevitável. E os olhos e a vista embaçam de qualquer forma, com a luz acesa ou apagada, porque a sensação que fica é de que a pupila secou mesmo estando cada segundo mais molhada, enquanto a gente desaba e desagua no mar, pra aumentar o naufrágio.

            A gente desaba porque sempre que alguém vai embora uma parte fica. Fica nos detalhes e nos porta-retratos na cabeceira; fica no silêncio que consome a alma e grita ecoando no ouvido porque a casa tá vazia; fica no outro lado da cama que tá vazio e só restou o lençol amassado refletindo isso o que tenho sido: um alguém amassado, debilitado por acordar todo dia e dar de cara consigo mesmo, de frente pro espelho encarando a perda e desistindo de se autopunir porque vai ser nada. O que dói de verdade é ver o outro partir em uma embarcação em que a gente tinha tudo pra ser capitão – da farda as qualidades necessárias pra embarcar na viagem e encarar o mar juntos, mas não foi porque ficou assistindo tudo da orla.

            É assim que eu tenho me sentido desde que você embarcou e eu fiquei, meu bem. É assim porque a covardia que eu sinto é a mesma de um capitão que abandona o navio com medo de naufragar – e eu você tínhamos tudo pra aguentar as ondas e as tempestades. É assim porque eu tenho encarado o teto, o espelho e um pouco de você que ficou nas prateleiras pra me fazer lembrar, enquanto você fazia as malas e partia com tudo aquilo o que eu preciso.

            A verdade é que autopunição é nada porque o que dói de verdade é ter que encarar o próprio reflexo no teto – porque quando a gente se sente assim, tudo reflete aquilo que machuca e a gente quer esquecer. Queria vestir a farda, meu bem, ser capitão e encarar no horizonte o pôr do sol e o mar com você, mas é tarde. Fica um pouco de você em tudo aquilo o que ficou e o silencio que é voraz. Me encaro no teto e percebo que na maioria das vezes a gente naufraga por medo de navegar.

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3 comentários em “Naufrágio

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