Do avesso

[…]

– É, uma pontada. Como se alguma coisa fizesse o meu coração pulsar feito uma britadeira e virasse tudo aqui dentro, tudo isso o que eu pensava que sentia por um monte de gente, do avesso. Foi como se olhar no teu olho fizesse o mundo girar em 360 graus até que eu me sentisse desnorteado, sem certeza das coisas todas que eu sinto porque me parece que tudo o que eu sinto agora é sobre você.

– E isso foi de repente?

– Foi. Eu acreditei a minha vida toda em amores a primeira vista e tudo sempre foi assim. Eu olhava, me perdia, sentia uma pontada ou um frio na barriga e rodava o mundo inteiro por uma pessoa que eu nem conhecia. Mas acontece que tem vezes que a gente demora a perceber que o nosso porto seguro já vive perto da gente há um tempo, e que esse tempo todo foi de descoberta, porque é preciso bater na trave umas tantas vezes até descobrir que a gente não precisa sair da inércia pra se sentir bem. E é assim que eu me sinto perto de você, bem.

– Eu também me sinto bem quando eu tô do teu lado…

– Não. Quando eu digo me sentir bem, é me sentir preenchido. É quando os meus dedos se encaixam nos teus e a minha mão percorre o teu corpo. É quando o meu olhar fixa no teu e você arruma uma maneira de olhar pro lado porque se sente envergonhada das outras pessoas todas. Você se sente envergonhada e eu me sinto desnudo da alma. Me sinto liberto, porque foi de repente que eu descobri que eu só me sinto desse jeito quando a minha mão toca na tua.

– E isso é bom?

– É, mas angustia. Essa coisa me causa um nó porque eu não sei se isso é uma coisa que só acontece comigo, se pra você tocar na minha mão é o mesmo que encostar em todo mundo e isso aqui não te causa nada. Angustia porque talvez seja só o meu mundo que fique do avesso quando esbarra com o teu. E o teu olhar tem me dito tanto coisa e eu não tenho entendido nada.

– Quer que eu te explique? Que eu despeje em você isso tudo o que eu sinto mesmo que o fardo se torne pesado demais para você carregar?

[…]

– Eu senti essa pontada por um tempo. Eu te criei e recriei na minha memória porque você passava por mim, esbarrava e não sentia nada. Eu passei a tomar Rivotril pra dormir porque você vinha na minha memória e não passava. Só que a gente sempre arruma um jeito de tirar o alguém da gente quando o amor acontece só dentro da nossa cabeça, e eu tirei você. Demorou um tempo, mas eu tirei, e a partir de então, eu passei a entender um pouco mais das coisas; passei a aprender a conviver com essa coisa que embrenhou e criou raiz. Conheci uns caras novos e tenho sido um tanto feliz, mas agora você me olha e diz essas coisas todas, e eu não sei se o meu mundo voltou pro avesso ou se eu sinto raiva por te amar no tempo errado.

– Talvez todo tempo seja certo pra amar. Eu demorei pra sentir a pontada, mas senti, e tô aqui agora. E eu entendo se você achar que deve partir porque é melhor ir embora antes de o coração se partir, mas por que a gente não tenta? Se essa coisa ainda te embrenha, se olhar no meu olho e tocar na minha mão vira o teu mundo do avesso, por que a gente não tenta? Talvez eu não seja certo por inteiro, ou talvez essa não seja a maneira certa de começar as coisas, quando dentro de você quase acabou. A gente nunca sabe o que é certo até tentar. Eu por um tempo só acreditei em amores a primeira vista, mas você virou essa coisa do avesso; eu olhei no teu olho e passei a acreditar que o amor pode viver do nosso lado sem a gente perceber. Mas e se do avesso for o lado certo?

– Não sei. A gente nunca sabe qual lado é o certo; se o avesso é que vai nos fazer feliz até o fim dos dias, ou se desse lado mesmo, onde a gente vive separado, é o certo.

– Eu tentaria por você.

– Eu acho que também.

[…]

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