Velho amigo

Atenção: Este texto não é uma biografia nem faz parte de um guia de rock chato, leia até o terceiro parágrafo (lhe peço com o pouco de tinta que me resta) e você entenderá.

Se você (como eu) é daquelas pessoas que gosta de estar sempre ouvindo novos sons, novas bandas ou novos estilos musicais, este exato momento pode lhe ser oportuno. Vou lhe apresentar uma música talvez desconhecida para a maioria das pessoas, mas que vem da alma de um grande (e já falecido) compositor, e pode lhe servir para relembrar bons momentos.

Morto em 2011, Doyle Bramhall era um baterista e compositor da cena musical de Austin, Texas, desde os anos 60. Em parceria com o lendário guitarrista Stevie Ray Vaughan (também já falecido), compôs diversas músicas (algumas foram gravadas e fizeram parte de álbuns de SRV).

Para mim, a mais especial delas é “Life by the drop”, um blues acústico que fala sobre a antiga amizade entre dois homens. Sim, meu caro leitor, é uma música triste. Dois amigos que se conheciam desde a infância, brincando na rua, mas que foram separados pelas incertezas da vida, seus caminhos traiçoeiros e as escolhas que todos nós fazemos e, por vezes, desejamos nunca ter feito.

Pois bem, os três parágrafos acima serviram para que você, que me lê, entender o que estou sentindo agora. Sabe de uma coisa? Há certos sentimentos e sensações que, por mais curtos que sejam, fazem a vida valer a pena. Nos fazem olhar pra trás, sorrir orgulhosos e pensar “valeu a pena”. Um desses sentimentos eu senti hoje: encontrar um velho amigo nos acasos do dia-a-dia. Aquele amigo que a gente não via há anos. Aquele parceiro pelo qual você tem apreço, e sabe que ele também o sente por você. Aquele tipo de amigo sobre o qual a gente não sabe muito: não sabe onde mora, não lembra sua idade, nem o que ele gostava de fazer no tempo livre, só lembra de quando o conheceu, na escola, no maternal, ou em qualquer outra ocasião. Porém, de alguma maneira, a gente sabe que ele é um amigo, nos lembramos dele na hora de convidar pra jogar uma bola ou fazer um churrasco, e sabe que ele se lembra da gente também.

Andando na rua, no meio de tanta gente, tantas vidas diferentes, reconheci aquele rosto, aquele rosto que também me olhava com uma expressão de surpresa: “bah é tu meu brother? Quanto tempo velho?!”. A nostalgia tomou conta daqueles minutos, me senti na escola novamente, no tempo em que não éramos estranhos um para o outro. Conversamos, contamos as boas novas, em qual faculdade/emprego estávamos e como a vida tinha seguido. E sabe, a melhor coisa não foi nem reencontrar um amigo, mas sim, perceber que nada tinha mudado. Perceber que apesar do tempo, da mudança, do amadurecimento, continuávamos amigos, simples como crianças brincando no pátio do colégio. É aí que a gente percebe que a pessoa é parceria verdadeira, quando nota que não precisa muito para se importar e querer o bem dos outros. Desde aquele dia, comecei a pensar mais sobre outras pessoas que conheci e que nunca mais havia tido contato. Pensei em um amigo que tinha uma banda comigo, e com o qual eu não falava há meses. Liguei. “E aí cara, como vão as coisas? Tudo certo? Bah que saudade de fazer um som, não pilha de reunir a turma uma hora dessas?”. Percebi na voz dele que ele gostou de falar comigo novamente, e que ele também sentia falta da época da banda. Aquilo me deixou em paz comigo mesmo pelo resto do dia. Na música, Stevie Ray Vaughan canta: “você seguiu o seu caminho e eu fiquei para trás, nós dois sabíamos que era só questão de tempo”, e nesses tempos em que vivemos onde a mudança é constante, onde tudo muda do dia para a noite, faz bem saber que existem coisas que nunca vão mudar. Faz bem saber que você tem amigos com os quais você pode contar, por mais longe que estejam no tempo e na distância. Faz bem saber que o tempo vai passar, vocês irão passar, mas a amizade verdadeira ficará ali, e nunca será esquecida.

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